Pulmão
do Planeta Água
(*)
Rinaldo Barros
“Um
dia a Terra vai adoecer. Os pássaros cairão do céu, os mares vão escurecer e os
peixes aparecerão mortos na correnteza dos rios e nos oceanos”. (Profecia
de “Olhos de Fogo”, velha índia da nação Cree, há 200 anos)
A conversa de hoje está cheia de inevitáveis termos
técnicos. Não pude evitar.
É preciso ter muito claro o papel da Amazônia no equilíbrio
da biosfera. A maior floresta tropical do Planeta, a Amazônia, corresponde a
2/5 da América do Sul e a metade do Brasil. Então, a floresta amazônica é
o “pulmão do planeta”. Certo?
Errado! Há muito se sabe que a floresta amazônica se
encontra muito próxima de seu ponto de compensação. Ou seja, sua taxa de
fotossíntese é quase equivalente à sua taxa de respiração.
É verdade que a floresta produz uma imensa quantidade de
oxigênio mediante a fotossíntese durante o dia. Porém, as plantas superiores e
outros organismos associados vivendo nessa mesma floresta respiram 24 horas por
dia, ou seja, o oxigênio que a floresta produz acaba sendo utilizado na
respiração dela mesma.
Ou seja, a nossa majestosa floresta não é, portanto,
o “pulmão do mundo”.
Felizmente, o planeta dispõe de outro mecanismo para absorver
o CO2 em excesso.
Felizmente, existem os fitoplânctons - nos mares e oceanos
(dois terços do nosso Planeta é ocupado por rios, lagos, mares e oceanos) e
funcionam como um reservatório, sugador de CO2 da atmosfera e produtor de
oxigênio.
Fitoplânctons são minúsculas plantas marinhas que florescem
sob água fria e rica em nutrientes. A sua notável coloração esverdeada é
causada pela reflexão da clorofila produzida pelos fitoplânctons, que, assim
como as plantas terrestres, usam o processo de fotossíntese para criar
carboidratos a partir de dióxido de carbono e água, ou seja, fixar em sua
estrutura o carbono e devolver o oxigênio ao meio ambiente.
A quantidade de oxigênio produzida pelos fitoplânctons para
atmosfera é superior a do oxigênio gerado pelas florestas, porque a massa verde
dos fitoplânctons é maior que a biomassa florestal. Os fitoplânctons estão
disseminados em todo volume das águas dos mares e oceanos enquanto as florestas
ocupam apenas alguns espaços sobre a crosta terrestre. Espaços cada vez
menores, pela ganância de alguns.
Caro leitor, acontece mais ou menos o seguinte:
Os mares e oceanos, devido ao aquecimento global, estão
tendo as camadas superficiais aquecidas e este aumento de temperatura
superficial aumenta o volume das moléculas d’água com a conseqüente diminuição
da densidade das mesmas. Por isso, apesar do movimento natural das ondas e das
marés, não há uma boa renovação, uma mistura das águas, a superfície não se
renova de forma suficiente para arrastar as partículas salinas nutritivas do
fundo dos mares e oceanos para a superfície até os fitoplânctons e estes,
devido a esse fenômeno, começam a se extinguir por falta de nutrientes.
Outra condição importante é a necessidade de luminosidade
para que haja a fotossíntese na biomassa formadora dos fitoplânctons, até
porque estes só sobrevivem aonde chega a luz solar.
A poluição reduz a transparência das águas, as águas ficam
translúcidas, impedem a passagem parcial ou total dos raios solares. Sem os
raios solares, não há fotossíntese. Sem fotossíntese, não há produção de
oxigênio e fixação do carbono.
Se os fitoplânctons morrem, liberam por ação anaeróbia, o
metano; o qual é vinte vezes mais poluente que o gás carbônico. O metano é um
gás leve, procura as camadas mais altas da atmosfera chegando até as camadas de
ozônio com o qual reage - quanto maior a quantidade de metano, menor e mais
rarefeita será a camada de ozônio, nosso escudo protetor ante os raios
ultravioleta. Uma tragédia anunciada!
Onde está a saída?
A saída está em poluir menos - não jogar lixo nas águas - e
fertilizar, em grande escala, os mares, oceanos e as águas internas, para
aumentar a reprodução primária dessas microalgas, os fitoplânctons.
Para que a profecia de Olhos de Fogo não se concretize, é
indispensável proteger o ambiente marinho e cuidadosamente gerir seus recursos.
Mares e oceanos seguros, saudáveis e produtivos são parte integrante da
segurança econômica e do desenvolvimento sustentável.
Resumo da ópera: por ignorância, as atividades humanas
estão tendo um efeito terrível e suicida sobre os oceanos e os mares do mundo.
(*) Rinaldo Barros é doutor em Meio Ambiente e
Desenvolvimento, pela UFPR –
rb@opiniaopolitica.com
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