O FABULOSO QUEM?
Tomislav R. Femenick (www.tomislav.com.br)
Em um desses
feriadões encompridados, eu quis inovar nas minhas rotinas diárias. Decidido a
quebrar com a mesmice do dia-a-dia, resolver não ler jornais, abrir a caixa de
e-mails, ligar a internet, ver televisão, ler livro, escrever ou ir à praia.
Cedinho, desci e fui andar no pretensioso jardim de alguns metros quadrados que
orna a minha casa e tomei um banho de piscina, coisas que eu não fazia há já
alguns meses. Depois de tomar café e acender meu charuto matinal, fui brincar
com a cachorra, mas as horas não passavam. Fiquei doido para, pelo menos,
folhear o jornal; mas me contive. O jeito foi andar pelas ruas do entorno da
minha residência. Como era feriado, também era muito cedo para encontrar alguém
nas ruas. Vez ou outra aparecia uma alma penada que passava por mim e fazia um
cumprimento meio acanhado, com as palavras ditas pela metade, faladas para
dentro.
Assim
passei a manhã inteira, procurando fazer coisas diferentes. Liguei para os amigos
daqui, de outros cantos do Brasil e fiz até uma ligação para a minha sobrinha
que mora no Texas, nos Estados Unidos, coisa que antes nunca tinha feito. Mas
não consegui falar com ela, vez que lá era dia de trabalho. Lá para as tantas,
arrastei minha mulher e fomos passear em um dos shoppings da cidade. Eu acho
que essa parte da ideia fui minha e de quase todo mundo, pois toda a população
da urbe estava lá. Mal dava para se andar nas alamedas. As lojas que estavam
abertas tinham compradores “escoando pelo ladrão” e a praça da alimentação
formigava de gente. Em determinada altura vi-me em frente de uma livraria.
Parei um pouco e fiquem conversando com meus botões: folhear livro é a mesma
coisa de ler livro? Resolvi que não era. Entrei.
Estava
vendo as prateleiras das novidades e olhando as outras, quando uma jovem senhora
se aproximou e pediu que eu autografasse um livro meu sobre contabilidade, que
ela havia terminado de comprar. Atendi e agradeci à minha ilustre leitora (todo
meu leitor é ilustre) o fato dela comprar algo de minha autoria e me voltei
para continuar a folhear os livros que faziam parte de um lote de lançamentos. Ai
fui abordado por um senhor com mais ou menos a minha idade, que tinha em mãos
um exemplar de outro livro de minha autoria. Falei para mim mesmo: “Puxa, isso
nunca me aconteceu antes, e agora acontece em dose dupla”.
Mais
não era nada disso. O cidadão queria simplesmente discutir o conteúdo do livro.
O livro em questão era a biografia do Padre Mota, lançado há poucos anos, de
quem o dito cujo se disse bastante conhecedor. Questionou o que disse ser a
“aridez” do meu texto, que no seu entender deveria ser mais informal, menos
técnico. Achava que teria que haver mais “causos” engraçados, que eu deveria
ter contado aquele do Raimundo Sacristão e aquela outra história etc. e tal.
Disse que não faria falta se eu não tivesse escrito nada da primeira parte,
onde são abordados aspectos da região e da gente de Mossoró e do Oeste do Rio
Grande do Norte. Nessa altura eu lhe perguntei se ele era de Mossoró e ele me
respondeu que não. Ai ele engatou uma marcha mais forte e continuou sua
análise. Disse que o livro deveria ter mais noticias sobre o padre e menos do
prefeito, pois ele, evangélico, não concordava com essa história de padre se meter
em política.
Ai
aconteceu algo surrealista. Eu perguntei: “O senhor conhece Mossoró?”. Ele
respondeu: “Não. Não gosto de calor”. Eu: “O senhor já leu o livro”. Ele: “Não.
Folhei aqui na livraria”. Eu: “Como é o seu nome”. Ele: “Johan Maurits van Nassau-Siegenda da Silva,
mas os meus amigos me chamam só de Maurício de Nassau”. E foi embora, sem ao
menos dizer um tchau.
Minha mulher, que até
então estava em outra parte da livraria vendo outros livros, chegou e me
perguntou: “Estava conversando com quem?”. Respondi: “Com o próprio, o fabuloso
Mauricio de Nassau”. Ela: “Com o fabuloso quem?”.
Fui para casa ler meus jornais, abrir a
caixa de e-mails, ligar a internet, ver televisão, ler meus livros e escrever meus
artigos. Só não havia mais tempo para ir à praia.
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