GOVERNO, PROSTITUTAS, ÉTICA E MORAL
Tomislav.
R. Femenick (www.tomislav.com.br)
Das muitas
aulas que recebi do meu tio Padre Mota – prefeito de Mossoró por quase dez
anos, nos anos de 1930 e 1940 –, uma delas foi sobre
como administrar os bens a as finanças públicas. Como em tudo, o ex-vigário
geral da Diocese se dava ao direito de fazer uso das suas tiradas satíricas de
alto nível. Aqui estão minhas anotações, tiradas da fita gravada com a
entrevista que fiz na ocasião, entremeada de expressões em latim e italiano:
– “Res publica” é uma expressão que se
diz em latim, composta de duas palavras: “res” e “publica”. O
substantivo “Res, rei” tem um significado amplo, pois pode ser entendido como
coisa, ofício, negócio, governo etc., enquanto a palavra “publica” tanto pode
ser um substantivo quanto um adjetivo. Se substantivo “publica, æ” que quer dizer
“meretriz”, “prostituta”; se adjetivo de 1ª e 2ª declinação “publicus, publica, publicum” quer
dizer “do povo”, pois ela (a palavra publica, do latim moderno) deriva de uma
outra, do latim arcaico: “poplicus”, público, sempre dita com relação a “populus”; “povo”. Se assim é, republica é a
“coisa do povo”, o “governo do povo”, porém muito fácil de ser deturpado em seu
sentido maior, corrompido em sua finalidade, prostituído em seus propósitos.
Ora, se os bens e o “danaro” [dinheiro]
da Prefeitura eram do povo e não meu, eu tinha que deles cuidar com muito mais
zelo do que cuidava dos meus parcos bens e dinheiro. Não queria que, quando eu
passasse na rua fosse apontado como o “meretrice della prefettura” [meretriz
da Prefeitura], mas sim como o cuidadoso
alcaide do Município.
Grande
Padre Mota. Culto, simples, honesto, bem humorado e acima de tudo um homem de gente
e da terra de Santa Luzia de Mossoró.
Mas
o mundo anda e eu também fiz as minhas andanças. No início dos anos 1970 deixei
a terra natal e fui moram no sul maravilha, em São Paulo. Dois anos depois eu
era diretor adjunto do consórcio formado pelas empresas de auditoria Deloitte e Revisora
Nacional, quando fui convidado para integrar o staff do banqueiro Aloysio de Andrade Faria, controlador das empresas lideradas pelo Banco
Real. Minha primeira tarefa foi instalar e estruturar a gerência de
Planejamento e Controle da Produção das empresas seguradoras do grupo. Entre os
meus funcionários estava um estudante de economia, ex-controlador de vôos da
Aeronáutica e morador em uma cidade próxima à capital paulista. Um dia, quando eu
já era diretor adjunto, ele foi a minha sala se despedir, pois estava deixando
a companhia para se candidatar a vereador em Campinas. Isso foi na
segunda metade dos anos setenta.
O tempo passou e, alguns anos
depois, li nos jornais a notícia de que o meu ex-subordinado tinha sido eleito
para a Assembléia Legislativa paulista. Mais algum tempo e leio novamente outra
notícia de eleição relacionada com ele; agora tinha sido eleito deputado
federal. Durante todo esse tempo não mantivemos nenhum contado. Um dia, já nos
anos noventa, quando novamente eu era diretor de empresa de Auditoria, a Soteconti,
a secretária anunciou-me que o deputado Manoel Moreira estava na recepção,
querendo falar comigo. Foi com alegria que o recebi; não são todos os dias que
a gente recebe a visita de um deputado federal e, muito menos, um que já tenha
sido nosso funcionário. Foi um conversa amena, sem rumo, apenas troca de recordações
de dois antigos colegas de trabalho.
Meses depois estourou a notícia:
Manoel Moreira estava envolvido no escândalo dos “anões do orçamento”, como
ficou conhecida uma CPI que investigou congressistas que desviavam recursos do
Orçamento Federal. Eles tinham como líder João Alves, aquele deputado baiano que justificativa sua
fortuna alegando que era um homem de muita sorte, pois ganhara dezenas de vezes
na loteria. A CPI apurou que três emendas apresentadas por Manoel Moreira
beneficiaram a construção do prédio do Tribunal do Trabalho em São Paulo (aquele do
juiz Lalau) e a construtora OAS, no valor de 100 milhões de dólares. A
ex-mulher de Manoel Moreira ajudou nas denúncias e ele não conseguiu explicar a
origem de três milhões de dólares, movimentados em suas contas. Para evitar a cassação
do seu mandato e a perda dos seus direitos políticos, ele renunciou.
Mas
a história não acabou ai. Em 1995, Marinalva Soares da Silva (a ex-mulher do
ex-deputado) e seu pai, Marinézio Silva, foram acusados de um golpe de dois
milhões de dólares, aplicado contra a Assembléia de Deus. Teriam desviado o
dinheiro da igreja para cobrir dívidas da campanha eleitoral de Marinalva, que pretendeu
ocupar o lugar do ex-marido na Câmara Federal, porém os votos foram poucos. Em
1998 Manoel foi novamente candidato a deputado estadual, mas não foi eleito. Foi,
isso sim, expulso da igreja em que era pastor. Todavia isso ainda não foi o suficiente
para afastá-lo da política. Em 1999 lançou Maeli Vergniano como candidata a
vereadora da capital, sua ex-assessora quando deputado. Maeli teve seu mandato
cassado e seus direitos políticos suspensos por oito anos por enriquecimento
ilícito, cobrança de propina, uso ilegal de carro e motorista cedidos por uma empresa
contratada pela Prefeitura e por coagir testemunhas e membros da CPI da máfia
da propina.
E por que estou me lembrando de tudo
isso? Por causa do relatório do deputado Luiz Sérgio (PT-RJ) na
CPI da Petrobras, que absorve todos os políticos envolvidos na roubalheira. Se
antes eu me envergonhava pelo simples fato de ter sido chefe de um bom
funcionário que se transformou em um ótimo escroque, um indivíduo que se
apoderava de recursos públicos por manobras fraudulentas, agora me envergonho
dos deputados do meu país. Talvez eu pertença a essa rara espécie animal em
extinção, os homens que acham que a honestidade, a ética e a moral são atos de dever
e não de obrigação. Acho que as pessoas devem ser honestas, éticas e praticantes
da moral não porque sejam obrigadas a isso, mas por convicção. Como se pode
fazer uma descarada defesa de ladrões da coisa pública dizendo que há falta de
provas quando as provas são abundantes? E desde quando burlar o fisco não é
falta de ética? Isso talvez seja uma forma rara de astereognosia moral, a “incapacidade de identificar os fatos como
eles realmente são”. O julgamento de nobres senadores e deputados deu-se no
âmbito do Congresso, portanto foi um julgamento político, e não no âmbito das cortes judiciárias, quando seria um
julgamento criminal.
Posso até ser tido como bobo, mas
continuo sendo um otimista inveterado. A esperança de dias melhores para este
país e para nosso povo está arraigada em meu ser. Espero um dia ler a noticia que
os parlamentares que absolveram os gatunos não se reelegeram, que as falas da
senhora presidente tenham algum sentido, que Lula explique suas intimas
relações com a senhora Rosemary Noronha, que todos os partidos estão respeitando e
praticando a moral e os bons costumes. Que país maravilhoso este poderia ser.
Basta negar votos aos mentirosos, incapazes, espertalhões e ladrões do dinheiro
do povo.
Acredito mais nas lições no Padre
Mota do que na desfaçatez descarada do relator da CPI da Petrobras.
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