Uma
Rosa Vermelha
Tomislav
R. Femenick
Bigode farto, porém bem aparado, pouco mais de 50
anos, casado e pai de dois filhos. Era proprietário
e fazendeiro – possui 20 casas alugadas, uma fazenda com algumas dezenas de
cabeças de gado zebu e plantava e colhia milho e feijão. Embora seu nome fosse
José Ignácio Tavares de Oliveira, todo mundo só o chamava de comendador
Taveira. Comendador porque certo dia, há alguns anos, comprou de um caixeiro
viajante, que se dizia representante no Brasil de uma tal Ordem de São
Crispiniano Victor, da cidade Lucca, na Itália, o título de Comendador, no grau
de Oficial. O vendedor explicou que era costume entre os comendadores, como
entre os Papas, depois de escolhidos adotarem um novo nome. Na cidade houve
alguém que dissesse que tinha sido mesmo erro de datilografia. Por erro ou por
propósito, era assim que estava escrito no diploma pendurado na parede da sala de
visitas de sua casa.
Oito e meia da noite do dia 8 de dezembro. Estavam,
o comendador e sua esposa, Dona Perpétua, jantando, quando lá fora na rua, em
frente à sua casa, vozes acaloradas se fizeram ouvir. Depois, bateram
fortemente em sua porta. Zangado, ainda com o guardanapo na mão, o dono da casa
foi atender aos impertinentes. Mas eram seus vizinhos, que lhe mostraram o
causa de tanto alvoroço: um caixão de defunto de pobre, com uma mulher morta e
nua, estava na calçada do Comendador. Jovem, branca, cabelos claros com mechas
louras, unhas pintadas e uma rosa vermelha com folhas verde tatuada no ventre,
à direita e um pouco abaixo do umbigo. Pela delicadeza das mãos, via-se logo
que não era gente de trabalhar no pesado.
A primeira reação do comendador foi chamar o
sargento Aderaldo, chefe da delegacia de polícia, que ficava na cidade vizinha.
Depois, olhando mais detalhadamente para a defunta, mudou de ideia. Achou a
moça muito parecida com uma das afilhadas de sua amiga Dona Maria Boa, que
sempre lhe arranjava companhia quando ia à capital tratar dos seus negócios.
Parecia até com a que lhe acompanhou na última visita, no mês passado.
Sendo assim, pensou, seria melhor averiguar um
pouco, antes de qualquer decisão. Então resolveu mandar chamar seu compadre
Pedro Lisboa, recentemente nomeado juiz de paz do lugar e também frequentador
da casa de Dona Maria. Tão logo ele chegou, afastou os curiosos e olhou o
cadáver. Então os dois ficaram confabulando em voz baixa. O comendador abria os
braços, baixava e subia a cabeça; o juiz abanada a cabeça de um lado para outro
e passava os dedos entre cabelos brancos. O povo só ouviu umas poucas frases,
entre elas “E se for? O que vou dizer a
minha esposa e patroa?”.
Pronto, o rebu estava armado. Espalhou-se pela cidade
a notícia que o Comendador conhecia a morta. Havia uma versão de que ela era
parenta de Dona Perpétua. Outra dizia que era uma filha bastarda do Taveira. Se
a cidade já estava toda acordada comentando o fato, agora estava pegando fogo.
Logo ele, com aquele bigodão e aquela pose de homem sério?
Estavam todos nessa agitação e nesse diz-que-diz,
quando um carro preto chegou em alta velocidade e parou em frente à casa do
Comendador. Desceram dois homens, que se identificaram como funcionários de uma
funerária e esclareceram o mistério: a morta era uma turista do sul que morreu
afogada tomando banho numa praia de nudistas. Eles a estavam levando para o
Instituto Médico Legal da capital quando a porta de trás do carro se abril e,
como estavam com o rádio ligado ouvindo uma partida de futebol, não ouviram
quando o caixão caiu.
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