Carta da Europa 6
Pra quem gosta de
viajar, a Europa oferece uma incomparável oferta de destinações turísticas por
vários meios de transporte. Atraída por uma boa oferta e ainda com boas
lembranças do meu primeiro cruzeiro, reservei outro, desta vez com destino ao
Mediterrâneo do leste, mais precisamente à Grécia, Turquia, Croácia e Itália.
Farei agora um relato da viagem e concluirei com alguns comentários.
Embarquei em
Veneza onde fiz um passeio de barco ao redor da cidade velha, na chamada lagoa.
Passamos pelas várias ilhas e ilhotas que compõem o complexo. O dia estava
claro e pude ver os Alpes ao longe. Infelizmente não tive tempo de visitar a
Praça de São Marcos. À 1hora da tarde partimos para Dubrovnik, Croácia.
Dubrovnik é uma
cidade que sofreu muitos terremotos e agora só resta sua cidade velha protegida
por uma imensa muralha. Em seguida navegamos rumo à primeira ilha grega, Corfu, que atrai muitos
turistas no verão, tem um bonito quarteirão antigo. Infelizmente o museu estava
fechado. Apesar de ser baixa estação (era meados de outubro) a temperatura
estava alta, em torno de 24⁰C. De tarde tomamos o rumo de Katakolon, onde se
situa a antiga cidade de Olímpia, local dos primeiros jogos olímpicos. As
ruínas são restos mesmo e não impressionam muito.
O próximo porto
foi o de Pireus que dá acesso à cidade de Atenas, onde visitei a Acrópole e fiz
um passeio de ônibus pela cidade. A este ponto já estava se formando em minha
mente um quadro da Europa oriental. Pelo que vi, os vestígios das antigas
civilizações estão em quase total ruína e só com um guia bem habilitado é
possível fazer sentido daquele monte de pedras e colunas. O que era
interessante mesmo foi pilhado por outros povos (turcos, romanos). O que restou
em termos de relíquias e artefatos está hoje nos museus das grandes cidades
européias ou foi surrupiado por outrem. A Acrópole, no topo de uma colina em
meio à cidade, é hoje um triste retrato do constante desgaste causado pelo
tempo e por guerras, que os gregos hoje tentam salvar através de restaurações.
A guia no entanto era muito boa e fez questão de que os turistas aprendessem o
que era uma coluna dórica, iônica e corintiana.
No dia seguinte
estava em Mikonos, uma ilha grega visitada por ricos e milionários, sem muito
apelo turístico. No dia 22 de outubro, ainda com bom tempo, estava em Kusadasi,
Turquia, um lugar que nunca tinha ouvido falar antes, mas que me ofereceu uma
agradável surpresa: era o porto para se chegar a Ephesus. Se você já leu os
depoimentos e epístolas de São Paulo na Bíblia,
ele pregou nesta cidade (52-54 DC) no início da cristianização. Era uma
região habitada desde o neolítico pelos hititas. No século 1 AC tinha uma
população de cerca de 250.00 habitantes. No século 1 DC deveria conter
400-500.000 habitantes. Era famosa pelo templo de Artemis completado em 550 AC
que foi destruído em 401 DC. Esta grande cidade foi parcialmente destruída em
614 DC por um terremoto, mas entrou mesmo em declínio quando perdeu seu porto
comercial devido a aluvião. Restam
diversas ruínas de valor: o teatro ao ar livre que podia conter 25.000
pessoas, a majestosa biblioteca de Celsus (um governador da era romana) e a rua
de blocos de mármore que dava acesso ao porto. As excavações continuam e os
artefatos obtidos estão hoje em diversos museus, sobretudo o de Viena.
Santorini, que
visitei no dia seguinte, vale a pena ser vista pela sua localização. Fica num
arquipélago que se encontra na caldeira de um vulcão submerso. O que resta
depois de uma grande e violenta erupção são umas pequenas ilhas. A maior delas,
também chamada de Santorini, abriga a cidade de Fira, capital do arquipélago,
que fica no topo de um rochedo, sendo só acessível a pé, de burro ou de
teleférico. Foram encontrados aí alguns restos da civilização minoana, que foi
totalmente destruída pela citada erupção (3.600 anos AC). Acredita-se que
Santorini foi o lugar que deu orígem à lenda de Atlântida, a cidade submersa
citada por Homero. Imagine: o navio-cruzeiro ficou ancorado na boca de um
vulcão cheio d’água...
Após dois dias em
alto mar contornamos a costa sul da Itália, passamos pelo estreito de Messina (que me pareceu muito estreito mesmo) que
separa o continente da ilha da Sicília, e rumamos norte para Nápoles, cidade
onde nasceu a pizza. Tivemos muito pouco
tempo para visitar esta grande cidade, parecida com Palermo na Sicília em sua
arquitetura. O marco da cidade é o Castel Nuovo (Castelo Novo), uma edificação
com vários estilos devido a contínuas modificações, que fica bem na entrada do
porto. Nápoles é uma das cidades mais antigas
do mundo que foram continuamente habitadas. Tem um dialeto característico. A
vista da cidade é imponente com o Vesúvio ao longe. O nome Nápoles vem do grego
nea(nova) + polis(cidade), nome dado pelos gregos ao fundarem uma colônia aqui.
27 de Outubro.
Último dia do cruzeiro. Deixei o navio “Crown Princess” num ônibus que nos
levou do porto Civita Vecchia a Roma , Ostiense, onde pegamos um trem para a
estação de Termini. Logo ao chegar, senti o impacto de uma estação enorme,
grandíssima. Achamos uma saída e fomos logo para o hotel que havíamos reservado
online. Não encontramos logo o endereço do mesmo; quando finalmente achamos,
havia um homem esperando na calçada por a gente e ele disse que o hotel ficava
em outro lugar não muito longe. Mandou um rapaz nos acompanhar até o hotel localizado
a uns 15 minutos de distância; de tarde fizemos logo um passeio: fomos ao
Colosseum de metrô cujo ticket era barato, demos uma volta grande a pé,
passando pelo grandioso monumento de Vittorio Emanuelle, e tomamos de volta o
metrô. Vimos muita ruína por perto. Roma é pontilhada de ruínas. De noite fomos
a um restaurante onde pedimos um jantar com dois pratos por 10 Euros. O quarto do
hotel era muito calmo e dormimos bem. No dia 28, domingo, fomos à parte antiga
da cidade. Tomamos o metrô até Fontana di Trevi. Gostamos muito desta famosa
fonte, mas não jogamos nenhuma moeda nela, como reza a tradição. Em seguida
fomos ver o Pantheon, que também foi fácil achar. O Pantheon éextraordinário.
Robin disse que após vê-lo, qualquer construção será um anti-climax. Vittorio
Emanuelle, que liberou a Itália no final do século 19, está sepultado lá.
Depois fomos para a Praça Navona com sua linda “fonte dos quatro rios”, Sempre
a pé, fomos ver o rio Tibre e passamos por uma ponte e o Castelo dos Anjos de
onde tivemos uma vista do Vaticano. Depois caminhamos ao longo da Avenida
Vittorio Emanuelle onde fizemos uma pausa para um lanche. Tomei um delicioso
chocolate quente com um pedaço de pizza. Sempre caminhando nesta longa avenida,
paramos para ver a Praça das Flores, onde Giordano Bruno foi levado à fogueira.
Novamente, muitas ruínas e igrejas. Dobramos à esquerda para a rua do Corso e
paramos no local da linda Coluna de Trajano. Em cima desta a Igreja colocou uma
estátua de São Pedro, que não cai bem sobre um monumento que representa as vitórias de Trajano sobre os
dacianos (na atual Romênia). Por fim
paramos um pouco na notória Escadaria
Espanhola, que não passam só de uns degráus. Em seguida tomamos o metrô de
volta para o hotel. Podíamos ter parado em alguns outros locais, mas tentamos
selecionar os mais interessantes no contexto turístico. De noite jantamos num
pequeno restaurante simpático (indiano ou paquistanês) que vendia comida
italiana, bem pertinho da estação de Termini.
Na manhã
seguinte, os museus perto de Termini estavam fechados e decidimos ir ao
Vaticano. Havia filas enormes para entrar nos museus e na Basílica, mas não
entramos nelas. Após um lanche no McDonald da vizinhança, voltamos para
Termini, almoçamos pasta e tomamos o metrô para o Colosseum de novo. Compramos
um bilhete para visitar o Forum ao lado (que dá concessão a pessoas da terceira
idade). Ingressamos no Forum às 3:15 e saímos às 4:15. Foi uma visita rápida demais para se ter uma idéia precisa da
área. Em seguida damos uma volta por perto do Colosseum e tomamos o metrô de
volta para Termini, onde retiramos nossas coisas do porta-bagagem e tomamos um
ônibus ao lado da estação às 7 horas da noite para o aeroporto Fiumicino.
Este relato
suscinto não descreve a emoção de visitar uma cidade que já foi o centro do
mundo ocidental. Você vê poder cristão em cima do poder romano em toda parte.
Vê a supremacia das energias sutis na coluna de Trajano, com seus altos-relevos
em elipse, revelando uma obra de espírito artístico de alto impacto, como que
vencendo qualquer domínio material. No plano bem material mesmo foi uma
surpresa ir a um simples restaurante e ser oferecido um cardápio só de
chocolate quente. Nunca tinha visto coisa igual. Inesquecível.
Como mencionei
no início, a Europa oferece todo tipo de viagem. Cabe a você extrair o máximo
de cada uma das opções. Algumas delas são voltadas a aventuras, lugares pouco
conhecidos, caminhadas, história de povos antiquíssimos, vulcões que viraram
cidades e ruínas que ainda revelam o espírito humano em sua trajetória.
Maria English
Portsmouth
(Inglaterra)
7.1.2013o