Lembranças
do ex-cabo que prendeu Djalma Maranhão em 1964
Luiz Gonzaga CortezJornalista
e pesquisador
O cabo Carvalho foi
um dos homens que prenderam o prefeito Djalma Maranhão,
no início de abril de 1964, no Palácio Felipe Camarão,
na rua Ulisses Caldas, Centro de Natal. Foi uma operação
militar, sem violência, conta Luiz Gonzaga de Carvalho,
funcionário aposentado da Assembléia Legislativa, onde
trabalhou muitos anos na Diretoria Legislativa, com
o diretor Antonio Dantas, Toinho Careca, já falecido.
Reencontrei "Luiz Manchinha", como é mais
conhecido, no Bar Cabeça do Bode, em Candelária, um
dos pontos mais conhecidos e freqüentados pelos boêmios
da zona sul. Ele não teve medo de falar sobre a repressão
militar durante e após o golpe militar de 1964, que
teve apoio das elites políticas do Rio Grande do Norte,
a partir das suas lideranças conservadoras, como Aluízio
Alves e Dinarte de Medeiros Mariz, e dos empresários
e entidades de classe (patronais e trabalhadoras), além
dos clubes de serviço e outras organizações civis, como
a maçonaria, por exemplo. Esta apoiou desde o começo.
Naquela época, os maçons temiam o avanço do comunismo
e das esquerdas em geral. Mas isso é outra história.
Certo dia (o cabo Carvalho,
nº 3333, não se lembra da hora, mas garante que foi
à tardinha), ele saiu do quartel do Regimento de Obuses,
em Santos Reis, onde servia na 2ª Companhia, num comboio
comandado pelos capitães Leitão e Torquato e o tenente
Maia, que hoje seria general, para prender o prefeito
Djalma Maranhão, que estava no seu gabinete de trabalho
com assessores, enquanto uma multidão lotava as dependências
da prefeitura. Há versões de que o povo correu quando
as tropas chegaram. "Eu vi quando o capitão Leitão
deu voz de prisão a Djalma Maranhão, depois que sugeriram
que ele renunciasse ao cargo de prefeito. Levamos Djalma,
escoltado por mim e outro colega, num Simca Chambord,
preto, um carro oficial da prefeitura, para o QG do
Exército, ao lado da Catedral. De lá, foi conduzido
um jipe militar para o quartel do 16º RI, no Tirol,
sempre muito bem tratado pelos oficiais e soldados.
Eu garanto isso porque eu fui um dos que escoltaram
Djalma Maranhão e vi tudo. Ele não resistiu à prisão,
que considerou uma ilegalidade, mas os oficiais disseram
que estavam cumprindo ordens. Mas ao chegar no 16° RI,
a coisa pegou porque o capitão Lacerda (Ênio Lacerda),
um dos encarregados da repressão e dos inquéritos contra
presos políticos, famoso (ou famigerado?) pela sua (truculência),
agrediu o prefeito com palavrões e deu uma "mãozada"
em Djalma, mas este foi mais rápido, se abaixou e meteu-lhe
uma tapa do pé do ouvido, que caiu "pronto"
no chão. Ô tapa segura!, meu irmão. Os oficiais não
deram apoio ao seu colega agressor, além de repreenderem-no,
pois se tratava de um preso, sob a guarda do Exército",
afirma Luiz Gonzaga de Carvalho.
O cabo Carvalho ainda
participou de diversas operações de buscas comunistas,
esquerdistas, prefeitos acusados de corrupção, lideranças
rurais, etc. Ele disse que nunca esqueceu da prisão
de um cidadão de Nísia Floresta, considerado perigoso,
que foi encontrado debaixo da cama da sua casa. Ele
não se lembra do seu nome, mas era dado como elemento
subversivo de alta periculosidade, mas só acharam livros,
jornais e revistas na casa, apesar das informações de
que lá existia um grande arsenal de armas pesadas. Os
soldados do RO passaram uma madrugada inteira,
cercando a casa e quando invadiram a residência do homem
provocaram um pandemônio, com gritos de mulheres e crianças,
que acordaram assustadas com os soldados armados de
fuzis e baionetas escaladas.
Tome peia - Carlos
Alberto Galvão de Campos é funcionário público aposentado.
Em abril de 1964 foi acusado de possuir uma estação
de rádio que tinha comunicação direta com Moscou. Foi
preso e levado para o quartel do 16º Regimento de Infantaria,
na avenida Hermes da Fonseca, onde foi espancado pelo
capitão Ênio de Albuquerque Lacerda, de triste memória,
dele recebendo pancadas nos ouvidos. Ele me contou que
um rapaz chamado Diógenes, de Macaíba, ficou perturbado
mentalmente por causa dos choques elétricos recebidos
dentro de um tanque cheio de óleo. "O capitão Lacerda
mandava mais do que o comandante do quartel, era um
torturador e um homem cruel. No RO, segundo eu soube,
foi pior, pois fizeram uma estrada com xiquexiques para
os prisioneiros andarem por cima dos espinhos. Eu me
lembro dos sofrimentos de um grupo de salineiros de
Macau, que tinham amizade com mestres-arrais. Eles foram
confundidos pelos militares como simpatizantes ou gente
da família do ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes,
que era considerado como comunista pela direita. O capitão
Lacerda perguntava aos salineiros se gostava de Arraes
e, como eles pensavam que estavam sendo indagados sobre
os mestres-arrais, eles respondiam que sim. O capitão
Lacerda dizia: "Ah, é?", e tome porrada nos
pobres salineiros. Os militares eram despreparados e
desinformados para lidar com os trabalhadores. Muitos
mestres-arrais de Macau e Areia Branca foram espancados",
revelou Carlos Galvão.
Carlos esteve preso
com Geniberto de Paiva Campos, Aldo Tinoco e José Arruda
Fialho, dentre outros, no 16º RI, onde chegou a organizar
uma comemoração pelo aniversário do prefeito eleito
de Natal, Djalma Maranhão. Ele mora na zona sul de Natal.
Em tempo: este artigo foi publicado em 2006, em O Mossoroense, Mossoró/RN. Como não encontrava uma cópia original, socorri-me do Google. a) Luiz G. Cortez.
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