- Campo de Concentração de Parnamirim RN
Torturas na Base Aérea Rio Grande do Norte 1952-1953
Coleção Repressão no RN - Volume 03
http://www.dhnet.org.br/verdade/rn/ccparnamirim.html - Conheça os nomes dos torturadores Campo de Concentração de Parnamirim RN
Eduardo Gomes inspecionou os locais de torturas da base aérea.
locais de torturas da base aérea.
Texto de Luiz Gonzaga Cortez - 5/09/13
No território do município de Natal não existe nenhuma base aérea, mas instalações de comandos e quartéis do Exército, Marinha e Fuzileiros Navais. No entanto, o nome da capital potiguar foi utilizado para rebatizar o antigo CFPM e CATRE, isto é, o campo escolhido pelos franceses no início do século passado, no qual os norte-americanos construíram a sua base aérea no auge da Segunda Guerra Mundial. A Base Aérea de Natal, encravada no vizinho município de Parnamirim, realmente foi palco de cenas degradantes e perversas a partir do final do segundo semestre de 1952, após a prisão de diversos comunistas e suspeitos de pertencerem ao Partido Comunista Brasileiro-PCB, civis e militares. Os comunistas passaram quase seis meses presos.
Antes da publicação da reportagem de O POTI de ontem, 4/08/2002, p.6, e da entrevista com o sociólogo Leonardo Barata, eu já tinha conversado com algumas pessoas sobre as prisões e torturas praticadas por oficiais da Aeronáutica na Base Aérea de Parnamirim, nos idos de 50 e 60, principalmente em civis derrotados pelo golpe militar de 1964, na sua maioria esquerdistas e comunistas ligados ao PCB, ao deputado Leonel Brizola e outras personalidades do governo João Goulart. Sobre aquele período conversei com um sargento reformado da FAB, considerado morto e cuja esposa recebia seus proventos como viúva quando, na verdade ele estava vivo ( e permanece) e trabalhando como fabricante de sandálias e calçados em Natal. Mas deixemos de lado essa história de “Teatcher” ( carinhoso apelido do sargento).
Barata acerta quando se refere às vítimas das torturas praticadas na Base Aérea de Parnamirim, durante vários meses, de outubro de 1952 a meados de 1953, mas erra quando credita apenas ao major Roberto Hipólito da Costa ( que não era brigadeiro, mas major aviador) às torturas praticadas aos presos. A matéria não faz nenhuma referência aos demais responsáveis pelas torturas, como o major Carrão, o major Nelson Dias de Souza Mendes (presidente do inquérito), o tenente Câmara (Carlos Alberto Bravo Câmara), o sargento Correia, o cabo Freire, dentre outros subalternos, e aos seus superiores hierárquicos, o comandante da base, coronel Honório Ferraz Keller e o comandante da Segunda Zona Aérea, brigadeiro Eduardo Gomes, que chegou a fazer inspeções periódicas ao local onde eram praticadas as torturas, uns cubículos de cimento situados ao lado do Cassino dos Oficiais ( a área teria sido demolida nos anos setenta). Numa dessas visitas, de surpresa, o brigadeiro estava acompanhado do sub-comandante da base,o todo-poderoso major Hipólito, um homenzarrão de quase dois metros de altura, que praticava e comandava pessoalmente as sevícias) e flagrou um soldado dormindo no setor externo dos xadrezes, por volta de 14 horas de um dia, em1952. Eduardo Gomes ficou irritado com o cochilo do soldado e, de imediato, o major Hipólito mandou recolhê-los à prisão, de onde saiu 30 dias depois. Xavier, que hoje mora em São José de Mipibú, não foi encontrado dormindo, mas era o companheiro de turno do soldado que dormiu no serviço. Os xadrezes foram construídos na gestão do coronel Honório F. Keller, mas quem mandava na base era o major Hipólito, segundo um ex-soldado. “O Hipólito era um obcecado, via comunistas em todos os lugares, de dia e de noite. Temendo uma invasão comunista, fechou o portão principal da base, próxima à curva da BR 101, na cidade de São José de Mipibú, mudando para está hoje, ao lado do aeroporto Augusto Severo. E mais: a cada 200 metros, entre a base e a cidade de São José, instalou guaritas, de 3 metros de altura, com sentinelas. O desvio da estrada, que passava defronte ao cassino dos oficiais, também serviu para que ninguém ouvisse os gritos dos presos, uns 20 civis e uns 30 militares. Nunca ninguém atacou a base”, afirma o ex-soldado.
Uma testemunha desse episódio me disse que até hoje tem receio de falar sobre aqueles fatos, “porque me dão nojo, vergonha e dá vontade de vomitar. “Meu amigo, aqueles homens apanharam e sofreram tanto que você não queira nem aquilatar. Hipólito e o tenente Bravo Câmara eram os mais cruéis, gostavam de espancar e humilhar os presos. O médico Vulpiano Cavalcanti e Eider Moura ficaram cinco meses incomunicáveis e, além das torturas físicas ( arrancaram todas as unhas de Vulpiano), eram obrigados a ficar nus, com os corpos pintados de preto, a passearem numa sala vizinha, puxando um brinquedo de madeira, uma espécie de carrinho que tinha duas asas em baixo que batiam quando as rodinhas se movimentavam, sob as vistas do major Hipólito e do tenente Câmara. Esse brinquedo não existe mais. Nessas ocasiões, os oficiais torturadores, como o major Hipólito e tenente Câmara, xingavam os presos, arrancavam os cabelos dos tóraxes dos presos, gritavam palavrões contra eles. O local dos suplícios eram um gabinete dentário, onde o preso era colocado na cadeira do dentista, despido, amarrado, torturado, humilhado, espancado, totalmente indefeso. De dia e de noite, os presos ficavam trancafiados dentro uns cubículos de cimento, com 40 centímetros de largura e 1,60 cm de comprimento. Não tinha direito a colchões. “Dormiam” no cimento mesmo. Eu me lembro de 12 celas, mas poderiam existir mais celas porque eram dezenas de homens presos, civis e militares. Cada cubículo tinha um orifício na parte superior, onde era colocada a “boca” de um alto-falante, que lançava o som vindo de um toca-discos, na qual era colocado um disco que ficava repetindo apenas um pequeno trecho durante a noite toda. Acho que o trecho dizia apenas “já matei o pavão/ já matei o pavão”, era uma música muita popular na época. Isso acontecia porque colocavam um peso sobre o braço da radiola e a agulha só percorria um pouquinho do disco. Não havia quem dormisse a noite toda. Isso durou uns cinco meses. Um detalhe: os soldados não podiam participar, só quem entrava nos locais de suplícios eram os oficiais, o sargento Correia e o cabo Freire, o escrivão do inquérito”, disse o ex-soldado..
O MORTO
Dentre as vítimas das torturas o caso mais grave foi do funcionário civil da base, Floriano Peixoto que foi preso acusado de integrar o PCB ou ser amigo de comunistas. “Esse rapaz apanhou tanto, que endoideceu, botaram um prego na cabeça dele. Disseram que ele bateu a cabeça na parede, mas a verdade que colocaram-no isolado numa enfermaria até que melhorasse. Tempos depois ele morreu em São José de Mipibu, mas no local das torturas não morreu ninguém”, afirma um ex-soldado. O major Hipólito ameaçou muitos de morte, inclusive o dr. Vulpiano Cavalcanti, que não pediu arrego nenhuma vez, nem foi molestado com um cacetete no ânus, mas teve a coragem de dizer pra Hipólito: “você pode me matar, mas não mudará as minhas idéias e não deixarei de ser comunista”.
Outro ex-soldado, residente em Natal, afirma que o major Hipólito não tinha braço direito na base, pois quem mandava, administrava era ele mesmo. Até as ordens para buscar os presos e levá-los para a Lagoa de Bomfim, “onde eram feitas uma série de coisas, que eu não quero nem falar”, eram dadas pessoalmente por ele e pessoalmente ia verificar se estavam sendo cumpridas. O comandante da base, o coronel Keller, não intervia em nada. O médico-veterinário Jaime Alves de Oliveira, que serviu na base, leu a reportagem de O POTI e confirmou a veracidade da matéria, mas adiantou que tem receio de falar sobre o assunto. “São tantas histórias... Isso compromete muito... Já faz tanto tempo...”, alegou Jaime, que ontem estava aniversariando. Um ex-soldado disse que apenas 20 homens da PM da Aeronáutica, na época, viram, ouviram e testemunharam os episódios. “Era uma tropa de elite, só tinha soldados letrados e dispostos”.
Ele aponta outras testemunhas daqueles fatos: Carlos Lira( jornalista, ex-professor de comunicação da UFRN, Lenine Henriques, Valdemar Matoso ( dono de um pensionato espírita na rua Apodi), residentes em Natal e que prestaram serviço militar na base aérea de Parnamirim. Os presos não tomavam banho de sol. De 10 em 10 horas, os cubículos eram abertos para os presos evacuarem ou urinarem. Os oficiais anotavam as conversas dos presos que, quando descobriram que estavam sendo vigiados, falavam em inglês e francês. Aí trouxeram oficiais de fora que sabiam esses idiomas. “Doutor Vulpiano falava muito bem francês. Vulpiano viu que estava sendo observado, passou a falar russo. Aí os oficiais ëndoidaram” porque não sabiam nada de russo... (risos), disse o economista. Um ex-soldado indicou os nomes de Joviano, West, os cabos Nival e Da Silva para falar sobre o assunto, mas não foi possível localizá-los.
Os recrutas de 1952 se reúnem anualmente em dezembro, num restaurante ou granja, num almoço de confraternização. O último ocorreu no restaurante Tábua de Carne. “Já estou esperando o próximo para conversarmos outras coisas”, disse o ex-soldado Jaime.
Com base nas declarações de Leonardo Barata e de ex-soldados da Base Aérea de Parnamirim, o Rio Grande do Norte não merece ser afrontado com a essa “homenagem” ao gaúcho Roberto Hipólito da Costa, com a sua denominação Campo de Treinamento de Maxaranguape. Arre égua, cruz credo!
Luiz Gonzaga Cortez é jornalista e pesquisador - 05/09/13
Espaço para veiculação de notícias, artigos e reportagens de interesse da comunidade potiguar.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
O campo de concentração de Parnamirim/RN.
Assinar:
Postar comentários (Atom)



Nenhum comentário:
Postar um comentário