terça-feira, 20 de novembro de 2012

A Revolta Comunista de 35 em Natal (II).


Agente da Polícia antecipou a revolta,mas houve

MUITA CONFUSÃO E TRAIÇÃO NA INTENTONA


Após a prisão de Luís Carlos Prestes, em 1936, no Rio de Janeiro, pela Polícia Especial, chefiada por Filinto Muller, foram apreendidos diversos documentos de membros do Partido Comunista do Brasil-PCB e da Aliança Nacional Libertadora, procedentes de diversos pontos do País. Entre eles, diversas cartas do comunista conhecido por “Santa”, que esteve em Natal dirigindo ações que culminaram com a insurreição de novembro de 1935.
Alguns desses documentos foram impressos pela Imprensa Oficial do RN, em Natal, 1938, sob o título Movimento Comunista de 1935 - Excertos da publicação: “Arquivos da Delegacia Especial de Segurança Política e Social Volume III - Polícia Civil do Distrito Federal-Rio 1938”. A carta de ‘Santa’ (1), cuja cópia da transcrição foi localizada em Natal, no arquivo particular de João Alfredo de Lima, revela detalhes interessantes sobre as ações dos revolucionários potiguares  e as rivalidades dos dirigentes da precipitada revolução que ficou conhecida por “Intentona Comunista” na historiografia oficial.
Parte dos documentos apreendidos nos arquivos dos chefes comunistas, segundo a Polícia do então Distrito Federal, tem o seguinte teor:

“DOCUMENTO 6 - C
Recife. Caros camaradas do S. do N. e do CC.
Prezados camaradas, este é o meu informe o qual faço para ser transmitido ao CC com urgência.

NATAL

1)      Começou o movimento no dia 24 (aqui deve haver engano de data pois que já sabemos que começou no dia 23). Neste mesmo dia estava reunindo o CR; começou às 9h da manhã e terminou às 14h da tarde. Na reunião se tratava de diversos assuntos, menos do levante do 21 BC por que não se sabia desse movimento. Fui a esta reunião e pedi o informe ao Secretário que estava ligado a este setor; ele não informou nada sobre este respeito. Só nos informou que o trabalho estava bem animado neste setor, já se contavam com grande números de aderentes, e que este setor estava ciente da transferência de unidades do norte para o sul e do sul para o norte, de acordo com uma carta do S. do N. nos mandou que na mesma nos pedia que o momento não permitia que se fizesse alguma loucura. Tudo isso foi bem discutido e todos cientes.
Terminando a reunião às 14h, retiramo-nos todos; estava junto conosco o camarada Dante. Passando eu pelo ponto de ligação achei um aparelho procurando o camarada secretário. Eram 15 horas. Então eu indaguei o que queria com o secretário, me disseram que andavam 3 militares do 21 a procura dele. Eu então me retirei para encontrar com o secretário para saber do que se tratava. Quando eu andava rua acima fui chamado a voltar à dita casa de ligação do israelita M. onde encontrei os três militares. Conheci o músico Quintino e mais dois jovens sargentos. Eram três da tarde e então eles me diziam que ia levantar o movimento às 4h da tarde. Eu combati muito esta atitude deles, dizendo que esperassem mais dois dias ao menos. Eles não aceitaram a minha proposta e me informaram que (hoje) na parada da manhã tinha sido desincorporado 28 militares inclusive sargentos, cabos e soldados, todos da confiança dele, era denúncia e eu então disse a eles que não resolvia nada individual e ia reunir o restrito mas que às 16 horas não podia ser o levante. E ele então deu-me mais 2 horas de prazo. Eu não aceitei, fui reunir o restrito. Já o secretário estaca ciente de tudo e andavam a minha procura. Encontramos todo o restrito às 15h30, mandei chamar o camarada Dante que tomou parte na reunião com o restrito. Meu ponto de vista foi contra se fazer esse movimento sem avisar o S. do N. Resolvemos mandar um companheiro para Recife de avião, quando vimos o avião já estava de partida, saiu o secretário e o camarada Dante para reunir com quatro militares e convencê-los de seu desespero. Reuniram às 4h30 com os militares, não puderam convencê-los. Então o camarada secretário e o camarada Dante trataram para às 8h da noite. Mobilizamos mais de 150 homens e mulheres. Dei as instruções das linhas traçadas, o desespero da traição de Quintino foi tanto que às 7h45 ele rompeu o movimento no quartel do 21. Não dei um só tiro contra. Todos aderiram com simpatia: foram presos todos os oficiais que estavam de serviço sem resistência. Os planos traçados na reunião que o secretário e Dante estiveram com os militares, não foram cumpridos. Quintino modificou tudo. Não fez as prisões dos grandes homens que estavam todos reunidos numa festa no teatro Carlos Gomes, que ficaram com medo de sair para a rua, que só saíram às 10h30 da noite e fugiram para uma casa onde toda hora chegavam notícias ao conhecimento de Quintino e ele fazia-se de surdo. Quando rompeu o movimento, nós, o secretário restrito, às 9h30 da noite nos reunimos para ver se a tarefa estava sendo posta em prática. Logo eu notei que não estava, mandei chamar Dante informamos o que tínhamos visto na rua, durante 1h45 de luta. Neste momento, chega o aparelho de ligação com Quintino e nos dá o informe: Quintino já estava desanimado porque a polícia estava resistindo. O povo estava na rua, os soldados do 21 com uma coragem bruta. Quando eram 24 horas da noite tínhamos mais de 3.000 mulheres e crianças em luta tomando de arranco e em 3 horas de combate tomando a praça da Detenção (há uma emenda ilegível sobre uma única perda) soltando todos os presos e ainda seguiram para o Esquadrão da Cavalaria que o fogo durou das 3 da manhã até às 7 horas. A massa e os soldados tomam o esquadrão. Com o informe do aparelho de ligação nos deu a vacilação de Quintino, o secretário resolveu que fôssemos dirigir no quartel a luta. Eram 6h da manhã de 25 (?) quando chegamos ao pé de Quintino e Elizeiel, sargento, e Guerreiro, cabo, e Agapito, sargento, os dois últimos uns heróis, aplicavam todas as diretivas mas Quintino e Lesiel (o nome correto é Eliziel) nada. Chegando nós no quartel, Quintino nos disse que estava má a situação; perguntamos por quê isto, pois só é a polícia que está resistindo? E nós animávamos ele. Tomamos diversas diretivas, armamos muitos trabalhadores que ele não queria dar armas. Chamamos 135 estivadores e mandamos para a tomada do quartel de Polícia que fez 4 horas de fogo cerrado. A massa atirava de bomba de mão no meio de fuzil e metralhadora. A tomada do quartel de polícia às 10h da manhã, expedimos grupos para ocupação dos impressos; imprimimos folhetos e mais folhetos, comícios em toda parte, distribuição de víveres para todos os cantos da cidade, tiramos um jornal com o nome LIBERDADE. Nas feiras, prendemos os cobradores de impostos e pagamos todos os vencimentos de todos os funcionários nas repartições onde se achavam eles aguardando ordens nossas. Queimamos todas as papeletas de cartórios, mesa de rendas, etc. Abatemos os bondes para funcionar a 100 réis, pão a 100 réis. Apoderamo-nos dos telégrafos, rádios, casa do governador, instalamos uma Junta Revolucionária na Vila Ceci e no outro dia 26 (?) já se estava senhor da cidade, já se seguiu tomando 7 municípios e Quintino continuava convidando-nos para abandonar-mos a luta dizendo que estávamos cercados. No dia 26 grande era a quantidade de massa na rua armados mais com arma curta e branca - os armamentos não aparecerem - cortamos mais de 500 metros de E. de Ferro de todos os setores. Esteve preso o chefe de polícia e comandante da polícia e uns oficiais do 21. - Quintino não nos quis entregar estes presos Fizemos diversas tentativas para arrancar estes para a massa, ele não quis e somente respondia “mais tarde”. Eu compreendi bem sua traição, comuniquei a todo o CR, logo separamos a junta de perto dele e então eram 4h da tarde do dia 26(?). A situação melhorou muito para a aplicação de nossas diretivas. Botamos a Junta na sua sede e entramos a agir. Quintino, vendo-se isolado por nós e a massa, nos acompanhava e os soldados do seu comando atendia mais a nós do que a ele, chegou a ponto de um cabo dizer a Quintino, este papel que ele estava fazendo dando toda a liberdade a proteção aos presos estava muito mal; ele só dizia para mim que eu estava muito afobado, que isto não era assim, que ele estava a par das leis e eu dizia a ele que no momento de uma revolução de massas as leis burguesas desapareciam. No momento em que nas massas andam mulher, criança, soldado pela rua afora, cantando os hinos da ANL e da Internacional, o povo, já está convicto de nossa vitória, parecem (aqui está incompreensível) a média (cremos que no meio dia) aparece Quintino com seu estado maior para propor a retirada de noite; resistimos porque não havia motivo para tal; dava a notícia de que Recife estava perdido, eles não acharam o nosso apoio, só tiverem apoio foi dos 3 da Junta, João Batista Galvão, Lauro Lago (2) e José Macedo, e eu então chamei Mamede e Dante e todo o CR e discutimos a traição”.

NOTA:

1 – O original do documento foi encontrado em Natal, em 1998, em poder do funcionário público estadual aposentado João Sizenando Pinheiro Filho. O texto faz parte do livreto “Rio Grande do Norte – Movimento Comunista de 1935”- Natal – Imp. Oficial – 1938. (Aposentado tem impresso original da intentona, Diário de Natal, 28.06.1998, p.13).
2-     Segundo informações prestadas por Lauro Lago, filho de Lauro Cortez Pereira do Lago, um dos dirigentes da Junta Governativa que se instalou em Natal, após a insurreição de 23 novembro de 1935, faleceu a 26 de abril de 1961, no Rio de Janeiro, onde residia desde 1945. Lauro C. P. do Lago era contabilista e durante décadas manteve o “Escritório Técnico-Comercial Ltda-ETECO”, na rua Barata Ribeiro, em Copacabana. Foi anistiado quando faltavam cinco meses para cumprir a pena, na Ilha Grande. Foi casado com Renê Barbosa Lago e Vanda Galvão do Lago (esta ainda vivia em Natal no início de 1990). Em 1935, Lauro Lago era diretor da Casa de Detenção de Natal. Um filho de Lauro C.P. do Lago do seu primeiro matrimônio é geólogo em Natal. Lauro Lago, filho do revoltoso de novembro de 35, é comerciante e reside na rua Praia de Camurupim, 8999, Conjunto Ponta Negra, em Natal.


AGENTE DA POLÍCIA ANTECIPOU A REVOLTA


“A quartelada de 1935 foi um dos grandes erros cometidos por Luiz Carlos Prestes, pois as condições eram adversas (1). A quartelada foi decidida em Moscou, pela III Internacional Comunista. Naquele tempo os comunistas tinham a sua Internacional, assim como hoje os sociais-democratas tem a sua Internacional Socialista. 35 foi arquitetada em Moscou com base em relatórios falsos, triunfalistas, elaborados por Miranda, um professor, que era o Secretário-geral do PCB. Miranda mandava para Prestes e o Comintern relatórios e subsídios que não correspondiam à realidade. Em 1934, Prestes saiu da União Soviética para liderar a revolução no Brasil, onde chegou com passaporte português, com nome de Antônio Vilar. Prestes tinha o renome de “Cavaleiro da Esperança” e pensava que isso iria contribuir para êxito da revolução. Os tenentes, os que participaram da Coluna Prestes-Miguel Costa, não tinham o cunho ideológico que Aliança Nacional Libertadora tinha. A ANL queria o fim do latifúndio, nacionalização das empresas estrangeiras, a moratória, a reforma agrária, etc. Isso era um avanço para a época. Antes de 35, Prestes, a personalidade mais importante da época, foi convidado para chefiar o comando militar da Revolução de 30, mas ele não aceitou. Foi outro erro. Apesar de ser um movimento intra-oligárquico  e burguês, Prestes teria dado uma guinada à esquerda no tenentismo. Então, o movimento de 35, foi mal pensado e mal encaminhado. Eu digo que não nos envergonhamos de 35, pois fazemos autocrítica”, disse o escritor pernambucano Paulo Cavalcante, durante uma conferência sobre o “Levante Armado de 35”, proferida no auditório da reitoria da UFRN, na manhã de 26 de setembro de 1985.
Ele veio a Natal a convite da Universidade e dos cursos de Mestrado em Educação e História da UFRN, promotores do Seminário “Sociedade e História do RN nas décadas de 20 e 30”, para falar sobre comunismo e lançar o seu último livro de memórias, “A Luta Clandestina”, no qual relembra fatos que presenciou como militantes do Partido Comunista Brasileiro-PCB, no Estado de Pernambuco.




JUDEU TRAIU A REVOLUÇÃO

Cavalcante reconhece que a revolução comunista de 1935 (ele afirma que não foi uma quartelada comunista mas da Aliança Nacional Libertadora) marcou com graves seqüelas o Partido Comunista do Brasil-PCB que, apesar das dolorosas lições aprendidas não corrigiu seus erros e tentou reeditar 35 em 1950, através do célebre “Manifesto de Agosto”, que pregava a extinção do Exército Brasileiro e a sua substituição por um “Exercito Popular Revolucionário”.
“O esquerdismo e o sectarismo da década de 30 retornaram em 1950. Somente depois de 1957 o PCB levou em conta as experiências de 35”, segundo Paulo Cavalcante. “Com a campanha nacional de “O Petróleo é Nosso” foi retomada uma política sensata e nos curamos do sectarismo com a última campanha pela anistia. No partido havia homens bem intencionados mas que não se conduziam de acordo com a realidade. Lênin dizia que “ai do partido que ocultar do povo os seus erros”. Nós nos curamos dos erros do passado. A linha do PCB hoje é saudável, de frente ampla, de manter as conquistas democráticas de Tancredo e Sarney e aprofundá-las”.
Depois de falar sobre a tática e a estratégica do Partidão, a linha política do PC do B, religião e as oligarquias nordestinas, Paulo Cavalcante foi indagado sobre a opinião de Prestes a respeito da intentona de 1935.
“Prestes acha que 35 foi um movimento válido. Ele rompeu amizade comigo. Prestes se recusa a fazer autocrítica a respeito de 35. Só aceita autocrítica depois de 45. “35 evitou que Plínio Salgado fosse Ministro da Educação de Getúlio Vargas”, dizia Prestes. Mas o Estado Novo, a ditadura de Getúlio, foi o fascismo, o integralismo sem Plínio Salgado”.
E sobre os propalados assassinatos de oficiais legalistas, no Rio de Janeiro, durante a insurreição nas guarnições militares? É verdade que mataram oficiais legalistas quando estavam dormindo?
“Olha, o escritor Hélio Silva, um conservador, portanto uma pessoa que nunca esteve simpatias pelo comunismo, autor do célebre livro “A Revolta Vermelha”, manuseou laudos médicos, inquéritos e relatórios policiais, processos, boletins... Em nenhum documento oficial ele encontrou qualquer referência de que tenham morrido oficiais legalistas dormindo. Nos relatórios dos delegados auxiliares de Recife e do Rio de Janeiro, Etelvino Lins de Albuquerque e Hugo Belens Porto, respectivamente, e os documentos estudados por Hélio Silva, não há uma referência, nem de leve, as mortes de oficiais dormindo. Essa história é uma deslavada mentira. Os quartéis estavam de prontidão. Dos dois lados quem morreu estava com farda de combate! Dizer que morreram ou fuzilaram oficiais dormindo é uma ofensa que se repete todos os anos, é uma balela que atinge a dignidade dos oficiais mortos dos dois lados, pois eles estavam de prontidão e não poderiam dormir. Essa versão foi criado no Estado Novo e repetida como um realejo para atingir a dignidade dos oficiais e enganar a opinião pública, como recentemente fez o general Euclides Figueiredo”.
Por que o movimento começou em Natal?
Bom. Muniz de Faria, militar reformado da Polícia Militar de Pernambuco, foi enviado do Rio de Janeiro pela ANL, para contactar com Recife e Natal. Ele não chegou a vir a Natal, pois viajou de navio do Rio para Recife, onde mantivera contacto com o Comitê Central do PCB. Faria chegou de madrugada e disse a Alceu Coutinho que o movimento tinha sido detectado pela inteligência inglesa e pelo Governo e que tinha que ser sustado, pois havia interesse do governo na sua eclosão em dias diferentes. Coronel Muniz de Faria não fez nada porque a revolução já estava nas ruas do Recife. Isto é, não deu tempo para chegar a contra-ordem. Infiltrado no PCB havia um judeu brasileiro, conhecido por Maurício, que trabalhava para a polícia. Dias antes da insurreição, no Recife, ele ficou perguntando pelas armas que “vieram da União Soviética”, “Não existem essas armas, vamos fazer a revolução com as nossas próprias armas”, responderam os revoltosos do Recife. De lá, esse tal Maurício veio para Natal e aqui manteve contatos com a tarefa de precipitar o movimento. Hoje não se sabe que fim levou esse tal Maurício”, respondeu o escritor Paulo Cavalcante.
Segundo ele a ditadura getulista, o Estado Novo, viria de qualquer maneira e que a insurreição de 1935 foi somente um pretexto e não a causa de sua implantação pelo grupo militar que mantinha Getúlio Vargas no poder, Hitler e Mussolini estavam no poder na Alemanha e Itália e a ascensão mundial do fascismo foram os motivos principais que levaram o Brasil ao “Estado Novo”, principalmente depois da divulgação do “Plano Cohen”, documento falso elaborado pelo capitão Mourão Filho, do Estado Maior do Exército e Chefe do serviço secreto da Ação Integralista Brasileira.
“Não vim aqui para repudiar o movimento de 35, mas para fazer uma autocrítica. Por causa do espírito tenentista, golpista e pequeno burguês, que predominava no Exército, 35 foi um movimento precipitado, não tenho dúvidas”, completou Paulo Cavalcante, autor de quatro volumes de memórias (“O Caso eu conto como o caso foi”).
No final de sua conferência, Cavalcante homenageou três comunistas do Rio Grande do Norte, mortos; Luiz Maranhão Filho, Vivaldo Ramos de Vasconcelos e Hiram Pereira de Lima. Vivaldo Vasconcelos, em Natal, foi elemento de ligação entre os que faziam os preparativos para a insurreição militar de 23 novembro de 1935, que ontem completou 50 anos.

NADA DE ALIANÇA.  FOI COMUNISTA MESMO

O professor Homero Costa, da UFRN, que faz mestrado na Universidade de Campinas-SP, estudioso dos movimentos comunistas no Brasil, disse durante o seminário que a revolução de 1935, ocorrida em Natal, Recife e Rio de Janeiro, foi um movimento estritamente comunista, planejado e executado pelo Comitê Central do Partido Comunista do Brasil-PCB.
O professor Homero disse que a Internacional Comunista, sediada em Moscou, mandou para o Brasil, clandestinamente, Luiz Carlos Prestes e a sua mulher Olga Benário, Artur Ewert (Harry Berger) um ex-deputado comunista alemão, Rodolfo Ghioldi, secretário Geral do Partido Comunista Argentino, todos “figuras importantes da Internacional Comunista”.
“A insurreição de 35 foi uma decisão do Partido e não da Aliança Nacional Libertadora. Paulo Gruber era elemento infiltrado pela polícia. A ANL foi uma frente do PCB para a insurreição militar. Em Natal, toda a junta governativa era do Partido Comunista. Era uma junta comunista e não uma junta aliancista. Houve planejamento bem elaborado para a insurreição e o CC do PCB foi quem autorizou o levante”, garantiu Homero Costa, que está preparando uma tese de mestrado sobre a Revolução de 35.( Ler “carta do professor Homero Costa em notas da reportagem “Na praia do meio se tramou a revolta”.

A DEPUTADA MARIA DO CÉU DISCURSOU NA ASSEMBLÉIA SAUDANDO O FRACASSO DA REVOLTA COMUNISTA


Na décima página, a edição de “A República”, de 1º de dezembro de 1935 (n.º 1.468), publicou um pequeno artigo de autoria da deputada estadual Maria do Céu Pereira Fernandes, do Partido Popular, a agremiação dos políticos conservadores e carcomidos do Rio Grande do Norte. Cinco dias depois do fracasso da revolução comunista de 1935, o órgão noticioso oficial não publicava uma linha sobre a existência de qualquer herói, civil ou militar.
A transcrição do artigo foi feita pela nossa auxiliar Maria Igacir Ribeiro da Silva. A sua publicação nesta série de reportagens sobre o comunismo no RN deve-se ao fato de não existir nenhuma referência aos debates ocorridos na Assembléia Constituinte Estadual, depois da intentona, nos livros e trabalhos publicados após 1937. “O Hosanna da Victoria”, de Maria do Céu, é transcrito aqui com a ortografia da época, (Maria do Céu foi a primeira mulher deputada no Brasil. É mãe do ex-deputado Paulo de Tarso Fernandes, ex-presidente do Diretório Estadual do PMDB-RN).

“O HOSSANNA DA VICTORIA“

Não seria por certo, lícito a quem nada tem com que pagar a ousadia de pedir. E eu que nada possuo para ressarcir a generosidade com que sempre me acolhe a gente boa e magnânima da minha grande terra, ouso ainda pedir que consinta em que, vez por outra, desdobre as páginas do nosso órgão oficial.
Louvável e merecedora dos nossos melhores aplausos é a iniciativa do muito digno diretor de “A República” dando-lhe domingueiras roupagens no dia consagrado ao Senhor. À página literária feita semanalmente hão de todos a correr porque nossa gente é sedenta do que é bom e são, é ávida do que é bello. Hoje que, louvado seja Deus, já sentimos brilhar sobre nossas cabeças a luz de uma abóbada sem nuvens, onde rutilam o direito e a justiça, sob cuja iluminura de debuxa o vulto da paz, é justo, é imprescindível que “A República” se dê cores diversas, tintas outras que não só as que de que se revestem os decretos e actos officiaes.
Tudo o que hoje nos punge relembrar já passou. O mal sempre flue para o seu ponto de partida. A procella, os ciclones, as trombas que devastam, que danificam, que destroem, não tem durações de eternidades. O oceano é que não passou, o bem é o que não morre, a verdade é que jamais sucumbe aos embates dos vendavais furibundos da anarchia e do crime. Passada a tormenta ella assoma, inalterável como sempre viveu, com serenidade de bonança para gáudio da virtude, e para vergonha do vício.
“O Rio Grande do Norte que teve em cinco anos o seu longo calvário, a sua dolorosa peregrinação por ínvios caminhos com o cruento holocauto de uns pela liberdade collectiva, ouve agora, cantada por todos os corações, a epopeia inenarrável”, do seu civismo, vê agora enaltecido pela gente deste grande Brasil o seu heroísmo que não tem confronto, assiste agora glorificada a sua ressurreição no Thabor de Luz que seus filhos lhe prepararam, e que há de iluminar imensidade a dentro e os tempos para orgulho das gentes que hão de vir.
Tudo hoje se alegra, tudo rejuvenesce, tudo entoa o Hosanna Magnífico da grande victoria. Maria do Céu. Essa foi saudação de Maria do Céu Pereira Fernandes à vitória sobre o comunismo”.



NOTA:


1-     Carta de Miguel Costa, de 05/08/35,(general da Coluna Prestes de 1926) ao Cavaleiro da Esperança, publicada no volume 1930/1935, da coletânea “Nosso Século”, edição da Abril, pág. 119:

“Estou hoje convencido de que realmente não há possibilidade de um meio termo no acerto de contas entre explorados e exploradores. Mas, se na luta em favor dos explorados os fins justificam os meios, parece-me que tem havido erros na luta, escolha e na aplicação desses meios. A ANL foi lançada no momento preciso. O seu programa anti-imperialista, pela libertação nacional do Brasil, antifascista e pela divisão dos latifúndios, realmente empolgou, não apenas as massas trabalhadoras, mas até a pequena-burguesia e mais fundamente os meios intelectuais honestos. Defendendo-se da ilegalidade em que seria fatalmente posta pela Lei de Segurança Nacional, a ANL propôs-se a resolver aquelas questões dentro da ordem. Fez a sua profissão de fé nacionalista e por último negou qualquer ligação mais estreita com o Partido Comunista. Nessa sua primeira fase, a ANL estancou desde logo o surto integralista no país. Veio o 5 de Julho. Você naturalmente pouco ou mal informado, supondo que o movimento da ANL tivesse tanto de profundidade como de extensão, lançou o seu manifesto dando a sua palavra de ordem de “Todo Poder à Aliança Nacional Libertadora”, brado profundamente revolucionário, subversivo, aconselhável aos momentos que devem preceder a ação.  Grito que deveria, para estar certo, ser respondido pela insurreição. No entanto, aí estão os fatos: veio o seu manifesto, veio o decreto de fechamento da ANL e este movimento popular, que parecia à primeira vista ter tomado todo o país, não reagiu nem com duas greves organizadas. O golpe reacionário do Governo, amparando-se nos termos de seu manifesto, pode ser desferido antes da hora que nos convinha. Não foi possível revidá-lo. Mas, se você tivesse, em vez de pregar o assalto ao poder, recomendado a mais viva consagração em torno da Aliança, não se teriam precipitado os acontecimentos”.

O FIM DA REVOLUÇÃO PARECEU CARNAVAL


Por sugestão do advogado Bianor Medeiros, o hoteleiro José Pacheco, 68 anos, proprietário do Hotel Tirol, testemunha dos acontecimentos de novembro de 1935, na região Seridó do Estado, prestou depoimento a “O POTI” sobre a participação do então padre Walfredo Gurgel, que mais tarde viria a ser governador do Rio Grande do Norte, com o apoio decisivo de Aluízio Alves, na chamada Batalha de Itararé, o famoso tiroteio da Serra do Doutor, no município de Campo Redondo-RN.
Pacheco também participou do tiroteio ocorrido na cidade de Panelas, hoje Bom Jesus, a 60 quilômetros de Natal, um dia antes da refrega na Serra do Doutor. Ele confirma o que Seráfico Batista, ex-prefeito de Santana do Seridó, disse a O POTI sobre a fuga em massa dos combatentes sertanejos, após o tiroteio com os revolucionários de 35, em Panelas.
Dinarte Mariz e Enoque Garcia, cada um com uma metralhadora de mão, chegaram em Santa Cruz e passaram a fazer discursos, conclamando o povo a pegar em armas para defender a sociedade contra o comunismo. Enoque era quem falava mais, pois Dinarte ainda não era político, mas foi grande aliciador de sertanejos para os combates de Panelas e Serra do Doutor. Os caminhões deles, do Dr. Flávio Mafra e Theodorico Bezerra foram usados para transportar os sertanejos. Descemos para Panelas e, no meio do trajeto encontramos uma Limousine, que os revoltosos tomaram do doutor Osvaldo Medeiros, com uma bandeira do Brasil cobrindo o capuz e dirigida pelo Sargento Wanderley, do Exército.  “Vim me entregar”, disse Wanderley, que entregou as suas armas e as que eram conduzidas por dois soldados, que lhes faziam companhia. Eu peguei um mosquetão e um bornal cheio de balas, me enchendo de entusiasmo para a luta. Quando começou o tiroteio em Panelas, eu estava detrás da igreja da cidade, sem disparar um tiro sequer, quando eu vi o carro fugindo. Ai resolvi fugir também, mas um comando de Dinarte Mariz parou a Limousine e mandou que a gente fugisse num caminhão, que estava cheio de carne de charque, rapadura, queijo e carne de sol, os alimentos das nossas tropas. Essa comida farta foi providenciada por Dinarte, que não participou dos tiroteios, mas foi peça importante porque atuou como um verdadeiro general. Descarregamos o caminhão, a cinco quilômetros de Panelas, e fugimos para Santa Cruz,, onde fomos dormir. Lá, estavam dizendo “tá todo mundo fugindo de Panelas”, disse José Pacheco, acrescentando, ainda, que cerca de 30 camisas-verdes, liderados por Walfredo Gurgel, participaram dos preparativos e da luta na Serra do Doutor, cujo número de mortes não soube precisar.
Bianor Medeiros, que foi integralista, afirma “qual a criança que ouvindo falar em Deus, Pátria e Família não se entusiasmava? A criança não via política (não sabia sequer o que seria) e sim via as figuras de envergadura e altura de Seabra Fagundes, Otto Guerra, Felipe Neri, Ewerton Cortez, Câmara Cascudo, Walfredo Gurgel, Mário Negócio, José Augusto Rodrigues, Manuel Genésio, Carlos Gondim,  Luiz Veiga, os Lúcio e Bilé, do Acari, todos sem exceção, eram bons oradores e comunicadores de massa”. (Retificação: em 1935, Clóvis T. Sarinho não era integralista. Sua entrada na Ação Integralista Brasileira/RN ocorreu em 1937).




“É COMUNISMO, MENINO!”


O escritor Otacílio Cardoso prestou depoimento sobre a revolução de 35 em Natal. Na íntegra, eis o seu relato que propiciou a manchete desta reportagem sobre o comunismo no RN.
“Quando da chamada intentona comunista de novembro de 1935 andava aqui o degas nos seus fagueiros 16 anos. Dezesseis anos daquele tempo, no que tange conhecimentos e esperteza, correspondem a uns 12 de hoje - e olhe lá!
Residia eu então na casa pastoral da Igreja Presbiteriana - uma pequena construção imprensada entre a Igreja e a prefeitura. Morava em companhia de duas irmãs mais velhas, das quais uma sobrevive. E foi esta justamente, que se encontrava em casa, naquela memorável noite. A outra logo depois da ceia, se deslocara até a casa de minha tia Ana, na Praça André de Albuquerque, 578 (onde é hoje uma lanchonete) a fim de saber como ia passando o nosso tio Gedeão, acometido por um derrame alguns dias antes.
Naquele tempo eu tinha uma paixão avassaladora pelo romance policial, devorava um atrás do outro, volumes de Conan Coyle, Agata Christie, Edgar Wallace, S.S. Van Dine... Justamente naquele dia (não havia ainda aqui a semana inglesa), eu adquirira no sebo do João Nicodemos, uma novela de Edgar Wallace, e tão logo terminei o café, “agarrei” a ler. Ao acender um “Yolanda” verifiquei, com desagrado, que apenas dois outros me restavam no maço. Iria um pouco mais renovar o estoque no Bar Teutônia, um café que existia então defronte da Prefeitura, bem pertinho, portanto. Mas a leitura era de tal modo absorvente, que eu ia passando de um capítulo a outro, e deixando o cigarro pra depois.
Seriam aproximadamente 7h - talvez um pouco mais - quando minha irmã chamou-me a atenção para um alarido qualquer ao lado do quartel do 21 BC, que era ali onde é hoje o Colégio Churchill. Só então emergi do “fog” londrino. Tão absorvido estava na trama do romance que não ouvira absolutamente nada...
Vou dar uma olhada - disse minha irmã dirigindo-se para o oitão da Igreja. Havia, nos fundos, uma saída para a Praça João Tibúrcio.
Aí começou o tiroteio. Minha irmã tornou às pressas e por pouco não corta a garganta num arame de estender roupa. Primeira vítima da rebordosa apenas um arranhão que a tintura de iodo logo sarou.
O tiroteio era cerrado, as balas por vezes ricocheteavam nos postes, sibilavam... Que diabo disto seria aquilo? Eu não sabia nem imaginava  o que pudesse ser. Depois da posse do Dr. Rafael Fernandes, menos de um mês antes, tudo parecia tão calmo...
Fechada a casa, ficamos, minha irmã e eu, a ouvir os disparos. Um tanto apreensivos, evidentemente. E ouvimo-los pela noite a dentro, pois a verdade é que, não só ruído dos disparos como a tensão nervosa não permitiam que nos entregássemos ao sono. Dei logo conta dos dois cigarros - e me arrependi pra burro. Sabe lá o que seria para um fumante passar uma noite sem pescar uma simples traíra, a escutar tiros e mais tiros, sem ter um cigarro para abrandar a tensão?
Ao amanhecer do domingo o tiroteio já não tinha a mesma intensidade, era, ao contrário, esparsos, pelo menos aqueles disparados nas proximidades. Mas lá pros lados da Praça André, a coisa continuava.
Ansioso por saber o que se passava, enchi-me de coragem, abri a porta e fui até o portão. Nessa ocasião vi, subindo a pé a rua Junqueira Aires, uma pessoa minha conhecida: era o dentista João Abdon, cujo gabinete dentário ficava no mesmo prédio da “A Razão”, jornal do qual fora eu tipógrafo até recentemente.
Que é que está havendo doutor?
Sem querer preguei-lhe um susto, decerto ignorava que eu morasse ali.
É comunismo, menino. E o melhor que você faz é ir para dentro!
Transmiti a irmã a informação. E passamos a cogitar sobre o que deveríamos fazer, pois, na época, “comíamos de marmita”, como se diz, e a casa, além de uns poucos pães e de algumas frutas não dispunha de mais nada no que tange a alimentos. A solução era irmos para a casa do tio Gedeão. Mas... e as balas? Não havia, contudo, outra saída, tínhamos que ir para a casa dos tios.
Ao tentarmos fazê-lo, porém deparamos com um obstáculo. Dois jovens soldados (ou pelo menos com a farda do exército), cada qual com um fuzil, estavam postados - um na esquina da Prefeitura, outro na do Atheneu (O Atheneu era onde ficam atualmente os fundos da Secretaria de Finanças do Município). Achavam os rapazes que não era aconselhável sairmos, e muito menos naquela direção.
Ali é que o fumo tá forte... disse um deles.
Minha irmã argumentou, expondo-lhes a nossa situação. Mostraram-se compreensivos. Procuraram até orientar-nos no trajeto.
Vão indo aí por essa rua da farmácia, “se cosendo” na parede...
A ‘Farmácia Maia’ antiga “Torres” era na esquina onde existe hoje a “Paraguassu Festas”.
Aproveitei para perguntar:
O que é que estar havendo mesmo?
Sei  não... Estamos apenas cumprindo ordens.
Saímos, seguindo os conselhos do jovem. É sempre bom seguir os conselhos dados por quem tem um pau-de-fogo na mão.
A fuzilaria continuava. Às vezes abrandava um pouco, para recrudescer em seguida. Pelo menos, de munição, parecia haver bom estoque.
Felizmente fomos encontrar tudo em ordem na casa dos tios. Meus três primos, rapazes, estavam em casa quando começara a inana, e lá permaneceram, está visto. Conheci nesta ocasião um rapaz que se tornaria posteriormente meu amigo - Lídio Madureira -, que fora surpreendido pelo tiroteio quando, vindo do Baldo, se dirigia para casa na Gonçalves Dias. Mostrava-se excessivamente nervoso, preocupado com a mãe, dona Nhazinha. Aliás, todos se mostravam naturalmente preocupados e perplexos, e também apreensivos com o que corria lá fora, que ninguém - nós, pelos menos - sabia ao certo o que diabo fosse. (O Dr. Abdon falara em comunismo, mas o número de comunista em Natal daria para fazer uma revolução? Mesmo com a nossa inexperiência achávamos impossível isso).  O meu tio, numa preguiçosa, olhava para um e para outro sem conseguir articular uma palavra, coitado. Uma preocupação, pelo menos fora afastada: havia em casa o bastante para as refeições do dia. “Aquilo” não ia durar muito, não era possível. Logo mais cessaria e tudo entraria nos eixos. Era o que pensávamos.
Umas 3 casas depois da 578 ficava a de seu Chico Teófilo, que alguns chamavam a “casa dos 3 anões” (tinha ele 3 filhos anões: Ester, Oscar e Lulu). A casa ficava na esquina da rua João da Mata, onde é hoje uma farmácia. Na calçada, um tanto elevado na extremidade fora postada uma metralhadora.  (Ouvi dizer que se tratava duma “metralhadora pesada”, não sei; graças a Deus nunca tive necessidade de entender dessas coisas). A tal metralhadora, apontada para o quartel da Polícia funcionava com eficiência, de quando em quando ouvíamo-lhe o ta-ra-ta-ta duma rajada. (Contam que, a certa altura a um recrudescimento do tiroteio, o Oscar aconselhara ao irmão: - Mano, te abaixa! Ao que Lulu, do alto dos seus setenta e pouco centímetros, retrucara: - Besteira, Oscar. Eu já sou baixo por natureza...!
O certo é que as horas iam se escoando – horas de apreensões para quem não tinha a menor idéia do que significava aquele entrevero.  Chegou a  hora do almoço, e por  pouca  que tivesse sido a comida,  teria dado de sobra.  Quem,  naquela situação, teria disposição para encher o bandulho?  Nós,  homens,  vingavamo-nos no cigarro.  (Meus primos costumavam comprar cigarros em pacotes – cigarros “ Lulu  n.º 2”, produção local da Fábrica Vigilante).
Aí por volta das duas horas da tarde, talvez um pouco antes, o fogo cessou.  E cessou mesmo por completo.  Um dos primos, chegando à janela, soube por um soldado que viera pedir um pouco d´água, que a Polícia acabava de render-se.
Uma meia hora depois assisti à passagem, pela nossa porta, provavelmente em direção ao quartel do 21, dos integrantes da PM, que haviam resistido até há pouco.  Nunca esqueci o espetáculo.  Impressionante.  Parecia cena de um filme.  Um reduzido grupo de homens cabisbaixo, suados, abatidos dentro das fardas sujas, os rostos macilentos mostrando  sinais evidentes  de cansaço ( Identifiquei, entre eles, alguns componentes da banda de música, que eu conhecera dois anos atrás, quando residira nas proximidades do quartel ).  Deveriam estar mesmo exaustos, pois haviam passado a noite inteira e toda a manhã manobrando os seus fuzis, sustentando fogo ininterrupto.  E agora ali iam, escoltados, naturalmente cheios de apreensão quanto ao que lhes poderia estar reservado.  E deveriam estar, além do mais, famintos.  No intimo fiz votos para que nada de mal lhes acontecesse.  E creio que não passaram por maiores vexames, apenas ficaram detidos por 2 ou 3 dias.
Cessado o fogo, as ruas foram voltando devagarinho a ter a presença  de pessoas,  não tantas como de costume, está visto.  Bom,  tem gente que é exagerada em tudo, até no medo.
Em companhia de dois dos primos, saí para uma voltinha e naturalmente a procura de notícias.  Pouca gente nas ruas, evidentemente, mas o bastante para que o jornal “Bocório” fosse dando suas edições extras...  Que o movimento estava triunfante, apenas em Santa Catarina e Paraná os inimigos do povo ainda estrebuchavam... Que o Cavaleiro da Esperança assumira o poder... (As   “manchetes” eram desse tipo ).  A certa altura escutamos um alarido, era um grupo de rapazes a pular, gritando que haviam tomado Panelas... (alguns deles, por gaiatice, traziam na extremidade de uma vara, uma panela de barro...) parecia mais uma troça carnavalesca.  No dia em que o brasileiro levar alguma coisa a sério o mundo se acaba.
Na segunda-feira, pela manhã, fui a imprensa oficial, onde a poucos dias começara a trabalhar.  Ali encontrei a maior parte dos colegas, mas nenhum sabia mais do que o outro.  Ninguém queria se comprometer dando com a língua nos dentes.
Dizem que tiraram um jornal...  – disse, já não me lembro quem. (Tirar queria dizer fazer, imprimir).
Pouco depois recebemos ordem para ir embora, até que a situação se normalizasse.  Claro que ninguém esperou que a ordem fosse repetida.
A propósito do jornal, “A Liberdade”,  foi o mesmo composto e impresso nas oficinas de “A República”, e não na “A Ordem”, como já chegou a ser dito.
(Meses depois, descobri em cima de um armário, na Seção de Avulsos onde trabalhava, uns trezentos ou mais exemplares da “Liberdade”.  Procurei obter um, mas o chefe negou.  Um dia, aproveitando a ausência do chefe, surrupiei um exemplar.  Depois me arrependi.  Mas me arrependi foi de não ter surrupiado uns dez...).
Agora já não tenho certeza se foi nesse dia ou no imediato, terça, que fomos ao Hospital Juvino Barreto visitar um conhecido nosso – Joaquim Barbosa – soldado da Polícia, que fora ferido no assédio ao quartel.  O ferimento, felizmente, não era grave, o Joaquim ficou apenas com um braço ligeiramente defeituoso e foi reformado  como cabo.  Mais tarde foi trabalhar na B. Naval, de onde já deve ter-se aposentado.
Quando deixávamos o Hospital, vinham trazendo numa padiola um rapaz, vítima de peixeirada lá pras bandas da Redinha.  Conhecia-o de vista era filho do alfaiate Joca Lira.  Integralista ardoroso, imprudentemente entrara a discutir com um adepto da revolução, que o ferira mortalmente.  Outro que morreu entre o sábado e o domingo, atingido propositadamente por arma de fogo, foi o agente da Costeira, Otacílio Werneck.  Morava numa casa nas proximidades da igreja do Bom Jesus.  Chegara ao portão, para saber o que estava ocorrendo, quando o alvejaram.  Conheci esse meu xará – como ao outro – apenas de vista.  De civis mortos, só me recordo destes.
Parece-me que foi também na segunda-feira que os bondes da Força e Luz passaram a cobrar pela metade o preço das passagens, ou seja, um tostão (100 réis).  É que houve, na calçada do quartel do 21, distribuição de gêneros ( feijão, charque e farinha ) aos pobres.
Quanto aos exemplares de “Liberdade” de que já falei, não sei que destino lhes deram, creio que foram destruídos.
...E eis aí, meu caro Cortez, o meu modesto depoimento.  Espremendo não dá quase nada – mas eu lhe avisei que tinha muito pouco para contar.
Uns sete anos depois, em Aracaju fui apresentado a um cidadão.
- Ah, o senhor é da terra do comunismo, hein?
Tentei esclarecer que Natal não era propriamente terra do comunismo, que houvera uma revolução de caráter comunista, é certo, mas engrossada pelos adversários do governo recém-empossado – e coisa e tal.
Não venha me dizer que aquilo ali não é um ninho de comunistas.  Se chegaram até a fazer passeata de freiras nuas... foi ou não foi?
Desmenti a balela.  O homem insistia:
Mas se eu li nos jornais!
Resolvi sair pela tangente da ironia misturada com a galhofa:
Bem parece que cogitaram disso, mas o número de freiras lá era muito reduzido, e como não fosse possível mandar buscar as de Aracaju, desistiram da idéia.
O olhar que o sujeito botou pra mim era como se dissesse:
Vá ver que você é um “deles”...
A revolução praticamente terminou na quarta-feira, à semelhança do carnaval.  Foi quando apareceu, sobrevoando a cidade, um avião se não me engano da Marinha.  ( O M. da Aeronáutica seria criado 5 anos mais tarde).  Aí houve a debandada, o salve-se quem puder.
Depois, foi a repressão.  E aí surgiram as delações, as denúncias abjetas, asquerosas.  Alguns, moralmente, se engrandeceram.  Outros, ao contrário, se apequenaram no afã deletério e torpe de destruir desafetos ou simples adversários políticos.  Mas isso já são outros quinhentos.
N. A.: Otacílio Cardoso faleceu em dezembro de 1999.



Retrato falado da suposta fisionomia do "herói" da PM/RN, Luiz Gonzaga, feito com base nas informações do sr. André Batista, hoje com 95 anos, e que conheceu "Doidinho", no povoado Sacramento, atual município de Ipanguassú.



 Doidinho, segundo João Maria Furtado, (vide "Vertentes", 1975) era um débil mental que perambulava nas proximidades do quartel da polícia militar, na Salgadeira,em Natal.



domingo, 18 de novembro de 2012

Suspeito de assalto a bancos, estava solto.



Natal

Natal, 18 de Novembro de 2012 | Atualizado às 18:17

Soldado da PM é preso com carro roubado

Valdir Julião - repórter
Publicação: 18 de Novembro de 2012 às 09:06
Tribuna do Norte/Natal.


A Polícia Civil do Rio Grande do Norte prendeu, na tarde do sábado, dia 17, o soldado da Polícia Militar, Wagner José Gomes Macedo da Silva, 30 anos, que foi pego com um Fiat Punto, preto, com placa fria NNO-1463/RN. Na ocasião também foi presa a pessoa de Josenildo Vieira Silva Júnior, que dirigia uma camionete Amarok Wolksvagem, que também tinha uma placa fria NOB-9927/RN.



A Delegacia de Propriedade de Veículos (Deprov) levantou as informações no Sistema Nacional do Denatran, e identificou que os dois veículos eram roubados do estado do Piauí, região Nordeste do país.



Segundo a Polícia Civil, o soldado é lotado no 5º Batalhão da Polícia Militar e estaria afastado das atiidades operacionais por força de licença médica. Outra informação é que o praça responde a processo por participação em arrombamentos de caixas eletrônicos bancários.



Segundo a Polícia, o preso Josenildo Veira já responde a três processos por assalto à mão armada, e está levantando a sua ficha prisional, a fim de saber se ele é beneficiário de progressão de regime prisional.



Já Wagner Silva havia sido preso em 6 de novembro de 2011 por participar do arrombamento do caixa eletrônico do Banco do Brasil, no Tribunal de Justiça do Rio Grande  do Norte, na Praça Sete de Setembro, Cidade Alta, no dia 30 de outubro. Entre os arrombadores também estavam o praça Alisson Firmino Barbosa, que servia em Currais Novos e estava atuando na Polícia de Turismo em Natal.



Na ocasião também foi preso o estudante de Direito, Paulo Teixeira de Lima, que trabalhava como terceirizado no TJ e outras três pessoas. Com o soldado Silva, a Polícia encontrara R$ 10 mil.



Os réus acusados do arrombamento do caixa eletrônico do BB do Tribunal de Justiça, estão respondendo pelo crime em liberdade desde o dia 10 de julho, quando o juiz Ivanaldo Bezerra Ferreira dos Santos, da 8ª Vara Criminal da Comarca de Natal, revogou  as prisões preventidas e expediu os alvarás de soltura de todos eles. 



No caso dos autos, o juiz disse que vislumbrava "o desaparecimento das circunstâncias que serviram de lastro para a decretação da prisão preventiva dos acusados". Segundo o despacho do juiz, não havia mais como manter a prisão preventiva, em razão de ter sido assegurada a instrução criminal, feita no âmbito da Divisão Especializada de Investigação e Combate ao Crime Organizado (Deicor), a cargo da delegada Sheila Freitas.



Atualizada às 11h15

A Revolta Comunista de 1935 em Natal.





Capa da reedição de 2005.

Nesses tempos de novembro, que marcaram a história política do RN, o jornalista Luiz Gonzaga Cortez aproveita a data para postar em sua página na internet, trechos da publicação de seu livro “A Revolta Comunista de 35 em Natal”. Foi nesse livro que o autor reuniu 20 reportagens publicadas no jornal O Poti, edição dominical do Diário de Natal, em 1985, e que traziam o título “O Comunismo e as lutas políticas do RN na década de 30”. Com as matérias, o jornalista conquistou o primeiro lugar no concurso “Elias Souto”, da Fundação José Augusto em 1985.
 
Além das reportagens premiadas, o livro reúne outras matérias sobre a insurreição comunista em Natal e o tiroteio na Serra do Doutor, região Seridó, local do enfrentamento de rebeldes e civis armados por fazendeiros e políticos conservadores, inclusive integralistas. Clique aquipara ler a primeirapostagem na página.
 
Luiz Gonzaga Cortez é jornalista profissional diplomado, um dos fundadores da Cooperativa dos Jornalistas de Natal (Coojornat) e atuou profissionalmente nos jornais natalenses, Diário de Natal, Tribuna do Norte e semanário “Dois Pontos”, precursor do atual vespertino Jornal de Hoje. Além da premiação do concurso Elias Souto em 85, Cortez ainda venceu as edições de 1984 e 87, respectivamente, com as reportagens “A Pequena História do Integralismo do RN” e “Luiz Maranhão, mártir do povo” (revista Flagrantes-Out/87).
 
Outras páginas de Cortez
 
O jornalista e pesquisador atualiza outras páginas na internet, de variado conteúdo jornalístico e informativo, confira esta, “Os estudantes e o regime militar no RN”, que resgata a história do movimento estudantil e a resistência a ditadura militar no Rio Grande do Norte.


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Postado por AssessoRN - Jornalista Bosco Araújo no AssessoRN.com em 11/18/2012 09:54:00 AM

sábado, 17 de novembro de 2012

Brasil não reconhece trabalho dos PMs em missões de paz.


OP publicou: "O Brasil não tem uma tradição em reconhecer os policiais militares que participam de missões internacionais. Um dos pontos que sempre surge entre os veteranos de Missão de Paz é justamente a “falta de reconhecimento”, em todos os níveis (federa"
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Novo post em Policiais Brasileiros em Missões de Paz - United Nations Police "UNPOL"


Formas de reconhecimento e valorização dos UNPOL? (01)

by OP
O Brasil não tem uma tradição em reconhecer os policiais militares que participam de missões internacionais. Um dos pontos que sempre surge entre os veteranos de Missão de Paz é justamente a “falta de reconhecimento”, em todos os níveis (federal, estadual e/ou institucional). Neste post, eu gostaria de tratar sobre uma forma específica de reconhecimento, a condecoração.
Diferentemente dos integrantes das Forças Armadas, que possuem condecorações próprias, participam de solenidades com seus familiares, etc., os policiais militares, além de não receberem qualquer tipo de condecoração por missão no exterior (como realizado em vários países) sofrem ainda com um estigma ultrapassado, arcaico e descabido, de que só “se dão bem” e “ganham em dólar e ficam ricos”, o que hoje em dia é claramente possível de ser desmistificado, como alguns estudos em andamento podem (e poderão) comprovar.
Não agindo as próprias instituições e seus estados de origem, a União deveria assumir posição de reconhecimento desses profissionais, que cedidos, representam o país. Seria, de alguma maneira, uma forma de reconhecimento e valorização do policial militar que abdica da sua vida cotidiana e de sua família, para servir, em nome do Brasil e da ONU, em missões internacionais de segurança e paz. Na mesma medida, as instituições e os governos estaduais poderiam ser, em virtude do engajamento com polítcas externas do governo federal, "estimuladas e reconhecidas".
Gostaria de chamar a atenção para a Medalha da Vitória, do Ministério da Defesa (Pasta responsável pela gestão de operações de paz no país):
*Medalha da Vitória*
A Medalha da Vitória é uma condecoração brasileira que foi criada pelo Decreto nº 5.023, de março de 2004, em reconhecimento à atuação do Brasil em defesa da liberdade e da paz mundial, em especial na Segunda Guerra Mundial (art. 1º). Consoante dispõe o art. 2º do Decreto em referência, a Medalha da Vitória poderá ser conferida aos militares das Forças Armadas, aos civis nacionais, aos militares e civis estrangeiros, aos policiais e bombeiros militares e às organizações militares (grifo próprio) e instituições civis nacionais que tenham contribuído para a difusão dos feitos da Força Expedicionária Brasileira e dos demais combatentes brasileiros durante a 2ª Guerra Mundial, participado de conflitos internacionais na defesa dos interesses do País, integrado missões de paz, prestado serviços relevantes ou apoiado o Ministério da Defesa no cumprimento de suas missões constitucionais (alterado pelo Decreto nº 6.126, de 15 de junho de 2007).
Essa Medalha prevê tacitamente a outorga aos UNPOL brasileiros. Poderia ser, considerando inclusive o baixo número de policiais militares que participam de Missões, uma forma de valorização dos veteranos. (Não tenho conhecimento de muitos UNPOL que a tenham recebido - salvo engano, apenas 2 que na Presidência serviam).
Algumas outras condecorações federais poderiam, além de agraciar os policiais militares veteranos, também as instituições policiais militares estaduais, que cedem seus efetivos para servir o Brasil.
Alguns exemplos:
*Ordem de Rio Branco*
A Ordem de Rio Branco é destinada a galardoar os que, por qualquer motivo ou benemerência, se tenham tornado merecedores do reconhecimento do Governo Brasileiro, servindo para estimular a prática de ações e feitos dignos de honrosa menção, bem como para distinguir serviços meritórios e virtudes cívicas. Pode ser conferida a pessoas físicas ou jurídicas, nacionais ou estrangeiras. Além dos graus mencionados acima, é conferida uma Insígnia da Ordem às corporações militares ou às instituições civis,às quais será aposta em suas bandeiras ou estandartes, sem atribuição de graus.
*Ordem do Mérito da Defesa*
A Ordem do Mérito da Defesa é uma condecoração criada pelo Decreto nº 4.263, de 10 de junho de 2002,e tem por finalidade premiar as personalidades civis e militares, brasileiras ou estrangeiras, que prestarem relevantes serviços às Forças Armadas, os militares que se houverem distinguido no exercício da profissão e, excepcionalmente, organizações militares e instituições civis, nacionais ou estrangeiras, suas bandeiras e estandartes.

*Ordem do Mérito Militar*
A Ordem do Mérito Militar é uma condecoração criada para galardoar militares, civis e instituições, nacionais ou estrangeiros, que tenham prestado serviços relevantes à nação brasileira, especialmente às forças armadas terrestres. O presidente da República é seu grão-mestre, e cuja grã-cruz e colar é sempre transmitida ao sucessor. Entre os grã-cruzes, estão os membros do Conselho da Ordem: ministros da Defesa, das Relações Exteriores e o comandante do Exército.

*Medalha do Pacificador*
A Medalha do Pacificador é uma condecoração criada para galardoar militares e civis, nacionais ou estrangeiros, que tenham prestado assinalados serviços ao Exército brasileiro, elevando o prestígio da Instituição ou desenvolvendo as relações de amizade entre o Exército Brasileiro e os de outras nações.


*Ordem Nacional do Mérito*
A Ordem Nacional do Mérito é uma condecoração criada para galardoar nacionais que tenham prestado serviços relevantes à nação brasileira.
*Ordem do Congresso Nacional*
A Ordem do Congresso Nacional é uma ordem honorífica brasileira destinada a galardoar tanto nacionais quanto estrangeiros que tenham prestado relevantes serviços à Nação, (...)
Convém, todavia, que as Corporações Policiais Militares e os estados brasileiros proporcionem instrumentos simples mas que valorizem e reconheçam o valor dos UNPOL.
Cap. Sérgio Carrera 

OP | novembro 16, 2012 às 6:40 pm | Categorias: Uncategorized | URL: http://wp.me/pcNGB-1bP

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sexta-feira, 16 de novembro de 2012


homem, atrás de, barras, prisão
A FALÊNCIA CONFESSADA DO SISTEMA PRISIONAL
Prof: Carlos Roberto de Miranda Gomes, advogado e escritor
 
A mídia nacional tem noticiado, com destaque, o recente pronunciamento do Ministro da Justiça José Eduardo Cardoso, quando declara ser preferível a morte a ter que cumprir pena de reclusão no Brasil.
Com tal dizer reconhece, com excessivo atraso, a falência do sistema prisional brasileiro, considerado medieval e cruel, que não tem o condão de ressocializar ninguém.
Isso eu já sabia há 44 anos, ainda nos bancos da velha Faculdade de Direito da Ribeira, nas lições inesquecíveis do Desembargador Carlos Augusto Caldas da Silva.
Hoje, a conduta tornou-se uma afronta aos direitos humanos, pois é proclamado como escola de aperfeiçoamento da delinquência, cujos alunos exigem do estado um gasto individual bem mais alentado do que é destinado para o sustento de uma família modesta ou ao incentivo à educação básica.
Prevalece a cultura da violência, a superlotação dos presídios, o descaso, a incúria e a corrupção.
Estamos numa encruzilhada – ou se cria uma política sustentável de segurança pública ou será melhor revogar, urgentemente, a lei restritiva do registro e porte de arma, senão a população honesta vai diminuir substancialmente de tamanho, consagrando o império do caos.
Mas, o que surpreende nesse inusitado pronunciamento, é o fato de que somente agora se proclama tal desajuste, coincidente com a perspectiva de se abrigar nos estabelecimentos prisionais, pessoas de importância no cenário político e empresarial do País, desmascarados no processo do mensalão e julgados pelo Supremo Tribunal Federal.
Até quando vamos suportar tanto cinismo no Brasil?

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A CNEC não morreu!



Em 1957, estudei no Colégio Mageense, que depois passou a se chamar Colégio Cenecista Dedo de Deus. Em 1968, fui convidada para dar aula, como professora voluntária, no Curso de Admissão do Colégio Cenecista Primeiro de Maio, em Santo Aleixo. Em 1969, fui convidada pelo Gal. Mário Barreto França, Superintendente da CNEC-RJ para dirigir uma Escola Cenecista, em Piabetá, no 6º Distrito de Magé-RJ. Apaixonada pela educação, claro, aceitei, mas quando fui conhecer a sede da Escola (100 alunos matriculados) não havia, fiquei um pouco assustada: a secretaria funcionava no corredor de um prédio que pertencia ao Estado e contava apenas com quatro salas de aula, iluminadas com lampiões a gás. Nenhum recurso mais. Um economista teria me aconselhado a sair correndo, sem olhar para trás. Todavia, consultei o coração e aceitei o desafio: fiquei 11 anos lutando, junto daquela comunidade.
Conheci Dr. Felipe, quando dirigia a Escola, numa tarde, quando estava triste, porque acontecera uma verdadeira catástrofe. Havia chovido muito e o vento derrubara uma grande parte da construção da sede própria, que lutávamos para construir em mutirão com a comunidade. Tudo até ali havia sido feito com verba arrecadada de festas, sorteios, doação de amigos e muito luta. O que fazer agora? Lógico! Escrevi uma carta para a CNEC de Brasília, chorando e pedindo uma ajuda para reconstruir o que foi destruído. Ele, Dr. Felipe, em carne, osso e emoções, veio de tão longe (1000 km de distância) dar a resposta, pessoalmente, trazendo a ajuda de que tanto precisávamos. Nem era grande a quantia em dinheiro, mas o amor demonstrado contagiou, abasteceu, e transbordou em nossas vidas.
Em 1973, fui conhecer Brasília, na única vez que consegui ficar de férias, e aí chegando lá, claro, procurei o endereço da sede da CNEC. Onde? Fui ao Ministério da Educação para saber onde ficava. Ao subir, antes de apertar o botão do elevador, olhei e...lá estava Dr Felipe, dentro do elevador, por  coincidência?  Fiquei muito feliz, porque o reconheci, mas confirmei, ao perguntar, o senhor é o Dr. Felipe? E ele, como sempre, tão simpático disse que sim, aí estufei o peito (porque perto dele a gente se sentia sempre muito grande) e me apresentei. Nem subimos, porque ele estava ali, no MEC,  procurando alguém para ajudá-lo a organizar o Congresso e a comemoração dos 30 anos de vida da CNEC. Em plena crise de abastecimento de carne, levantava-me às 5 horas da manhã para entrar na fila e olha que faz frio, em Brasília, em julho. E as minhas férias? Ficou para outra época.
Voltei ao Rio. O Visconde de Mauá já estava com quase dois mil alunos. Na época eu era Secretária Municipal de Educação de Magé. Mais uma vez, qual foi a minha surpresa, quando o telefone tocou e, do outro lado, Dr. Felipe disse que o meu nome era o mais indicado para Administrar a CNEC-RJ. Fiquei perplexa! Minha cabeça deu milhões de voltas. Com dois filhos pequenos, morando a 50 km do Rio. Como seria isto? E o Visconde de Mauá? Meu marido, sempre respeitou minhas opções, mas esse convite mudaria muito a rotina de nossa vida. Como dizer não?
No dia 5 de junho de 1975, tomei posse. A CNEC estava unificando a administração da Guanabara  com a do Estado do Rio. Agora era um só Estado. Tudo muito complicado! Muitas Escolas deficitárias. Algumas deveriam encerrar as atividades. Só isto iria consumir todo o tempo, mas ainda havia outras 182 escolas cenecistas clamando por assistência. Não havia fim de semana, férias ou feriado. Era dureza ver o meu filho caçula dizer que quando crescesse gostaria de ser piloto para jogar uma bomba em cima da CNEC! Porque ele sentia muito a minha falta... Apesar de todos os sacrifícios, vencemos sempre!
Em 1980, ao sair da direção da Escola, por opção minha, precisava dar assistência aos meus filhos, lá estava a sede própria do Centro Educacional Visconde de Mauá, numa área que meu pai pediu ao Prefeito Magid Repanni e foi doada pela Prefeitura, com o prazo de dois anos para construir, senão perderíamos a área. Todavia, o grande mutirão comunitário deu resultado:12 salas de aula, secretaria, biblioteca, quadra de esportes, banda de música, e o nome da Campanha Nacional de Escolas da Comunidade respeitado no Município de Magé.
Após anos de luta no Rio, no dia 06 de julho de 1990, fomos convocados novamente pelo Dr. Felipe para ajudá-lo, em Brasília, na Administração Central. Quem teria coragem de dizer não a um homem daquele? Arrumamos a mala e fomos eu e o meu marido, Nelci, que sempre me apoiou, trabalhando, sem receber um centavo da CNEC. A grandiosa luta continuou. Daria para escrever um livro, com lágrimas, muitas lágrimas, porém, as vitórias superaram e com a força de Deus caminhamos, sempre. Foram mais sete anos,em Brasília, ombro a ombro, com a equipe-irmã da Administração Central, inúmeras vezes, todos colocando o próprio corpo na frente do grande herói Felipe, para as pessoas não feri-lo, nas duras batalhas. Valeu a pena.
Quando em 1993, Coordenei a grandiosa Festa Nacional do cinqüentenário da  o Teatro Municipal de Brasília estava lotado. A magia da entrada triunfal dos Estados, portando as bandeiras, a emoção do hino cenecista cantado, com tanto fervor, e o encerramento de quase arrebatamento, quando o Pai Nosso foi cantado, a capela.
Em 1996, Dr. Felipe não morreu! O céu o convocou para contabilizar com os anjos, tudo o que a CNEC havia feito até ali: milhares de vidas resgatadas do abandono, do analfabetismo, da falta de oportunidade, da miséria social. A Deus toda honra e toda a glória!
 Ivone Boechat
aluna, professora,
diretora cenecista, Superintendente Estadual da CNEC- Rio de Janeiro e Bahia

Superintendente Itinerante Nacional da CNEC

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Quantos funcionários tem a Câmara de Vereadores? Quanto a DESTAQUE paga de ISS no Carnatal?


Os números da Prefeitura

Publicação: 14 de Novembro de 2012 às 00:00

Tribuna do Norte - p.02.
Laurence Bittencourt - jornalista

Impressionou-me os números referentes à Prefeitura de Natal revelados pelo atual prefeito da capital, Paulinho Freire, um dia ou dois depois de tomar posse no cargo como atual gestor, isso a uma das emissoras de rádio local. O que disse o prefeito com relação a números da prefeitura de Natal? 

Disse, por exemplo, que o município tem uma arrecadação mensal de 60 milhões de reais, e que a folha de pessoal (hoje pela Lei de Responsabilidade Fiscal não pode ultrapassar o valor de 60% do total da receita) consome 52 milhões. Leia de novo: 52 milhões de reais de um total de 60 milhões de reais, mês. 

Logo em seguida, o prefeito acrescentou que do que sobra, ou seja, os 8 milhões de reais, a prefeitura de Natal ainda tem que saldar dividas federais, estaduais e outras. O que sobra? Nada. Como então ter dinheiro para investir na cidade? Simplesmente não tem. Como ter dinheiro para tapar buracos? Não tem. 

Imediatamente após os números dados pelo prefeito fui para a ponta do lápis e verifiquei que se o município arrecada 60 milhões de reais mês e consome com folha de pessoal 52 milhões isso representa 86% do valor total arrecadado pela prefeitura. Contraria a Lei de Responsabilidade Fiscal (quem foi mesmo que instituiu neste país a Lei de Responsabilidade Fiscal? Bom, deixa prá lá)? Totalmente. 

Fiquei me lembrando de algumas entrevistas dadas pela ex-prefeita em que ela acentuava que tinha dado preferencia em sua gestão ao funcionalismo, ou seja, ao pessoal. Deve ter sido mesmo. Ou seja, deve ter aumentado em muito a folha de pessoal. O interessante é que na mesma entrevista de Paulinho Freire ele deu outro número de que a quantidade de funcionários da prefeitura de Natal hoje é algo em torno de 21 mil funcionários. Se dividirmos 52 milhões por 21 mil funcionários, teremos uma média (eu falei uma média) de 2.500 mil reais de salário por cada funcionário, ou seja, para cada um. 

Fácil constatar que aumento de salario apenas não significa "render" votos. Talvez a ex-prefeita tenha acreditado nisto. O aumento na folha de pessoal ultrapassando o limite da responsabilidade fiscal me parece, ainda graceja forte em nosso país. E é justamente por isso que falta dinheiro para fazer saneamento básico, investir em educação, saúde, segurança, estradas, etc, etc. É por isso que temos um aumento considerável de carros por ano, mas não temos planejamento nem recursos para organizar o trânsito. É por isso que faltam recursos para administrar uma cidade. 

O incrível é que pelos números fornecidos pelo atual prefeito, o município de Natal têm mais de 21 mil funcionários e ainda assim as coisas não funcionam. Não é estranho? E não é apenas com relação à tapa buracos não, também não funcionam na educação (que não é só construir prédios ou viver de propaganda), na saúde, na coleta de lixo, etc.

Já se disse que prefeitura (como de resto qualquer governo) não tem o poder de fabricar dinheiro. Mas tem um poder de gastar dinheiro que não é brincadeira. 

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Nota: Paris, capital da França, tinha 1.500 funcionários no ano 2000. E hoje?  Paris recebe mais de 30 milhões de turistas por ano e tem mais de 15 milhões de habitantes.